‘Feliz Ano Novo’ estreia neste sábado e faz a plateia descobrir novas sensações

O universo feminino em uma peça para sentir, e não ver

Por O Dia

Rio - Paula Wenke tem um ritmo acelerado, fala rapidamente, quase sem respirar. Ela também é inquieta, mas costuma ser paciente e agir com tranquilidade para não prejudicar a saúde. Hoje, a atriz estreia o espetáculo ‘Feliz Ano Novo’, com técnicas do Teatro dos Sentidos, criado para uma plateia de cegos, no Caixa Cultural do Rio de Janeiro. Até quem não é deficiente visual entra na proposta e coloca uma venda para ter seus sentidos mais apurados.

“Fazemos isso desde 1997 e as pessoas que não são cegas ficam maravilhadas, vão até o final com a venda nos olhos. Nosso objetivo é fazer com que as pessoas possam experimentar o que nunca tiveram oportunidade. Usamos a venda para provocar prazer, a ideia nunca foi causar desconforto”, conta a atriz, de 44 anos, que também se divide entre as funções de escritora e diretora.

Peça ‘Feliz Ano Novo’ tem efeitos surpreendentes para plateia de cegos e pessoas com venda nos olhos Divulgação

Levantando a bandeira feminista, Paula levou muitas questões que envolvem o universo feminino para cima dos palcos. “Vivemos num país absolutamente machista. Na peça, falo da violência contra a mulher e também faço uma crítica ao comportamento masculino e feminino também”, explica. O espetáculo fala da história de um homem viúvo que conhece uma mulher durante uma noite de Revéillon e não vai em busca do amor.

“Acho que os homens têm medo das mulheres inteligentes e cheias de opiniões. Ou eles caem fora, ou eles usam a mulher como se ela não valesse nada.” Foi a desilusão com os brasileiros que fez com que Paula encontrasse o amor com passaporte internacional. “Namoro um gringo, um croata-holandês, o Ivan, nos conhecemos durante a Copa do Mundo. É complicado namorar brasileiro, eles tratam as mulheres muito mal. Os estrangeiros encaram as mulheres de uma forma menos medrosa e mais educada”, reflete Paula, que não tem filhos. “Mas tenho muitos afilhados”, brinca.

Nas horas vagas, a bicicleta é sua melhor companhia. Paula caminha pela orla, observa as pessoas e, quando chega em casa, vê palestras sobre filosofia na web. Ela conta com orgulho que muitas pessoas que assistem às suas peças ficam encantadas, ligam para ela e escrevem cartas de agradecimento.
“Uma vez, um senhor me ligou chorando. Ele disse que sua mulher era cega e que não tinha a menos paciência. Depois da peça, ele mudou totalmente seu comportamento em relação a ela”, conta, orgulhosa.

“Fico feliz com esse trabalho que fazemos. Na época em que comecei as pesquisas, não se falava em inclusão. Estamos, cada vez mais, desenvolvendo mecanismos para nos comunicarmos melhor com os cegos. No teatro, fazemos coisas impossíveis, incríveis, que só existem porque a plateia não pode ver.”

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