Por daniela.lima
João Pimentel%3A JúniorDivulgação

Rio - Um belo dia, fim de tarde, chego à minha locadora, em Laranjeiras, e vejo o cartaz: “Vendemos todos os filmes. DVD a R$ 10 e Blu-Ray a R$ 15.” Não lembro exatamente se os valores eram esses, mas sei que entrei na sala, que existia há mais de 20 anos no bairro, e vi o dono, Júnior, resignado diante da inevitabilidade da situação. “Tive que tomar essa atitude antes que o prejuízo fosse maior. Hoje as pessoas não precisam sair de casa para alugar filmes”, disse-me, sem disfarçar a tristeza. 

Pois bem, ou pois mal?, o local onde ficava a Point Video transformou-se em uma filial de uma firma de depilação, pintura de unha, enfim, um salão de beleza modernoso. E o Júnior, em vez de me indicar filmes, de bater ótimos papos sobre cinema, e de dividir conosco, moradores, o seu bom-humor, está lá, ouvindo as conversas das manicures e da mulherada do bairro. Não sei se ele vai ficar chateado por eu estar falando sobre isso, sei da necessidade dele, que é a de todos nós, de correr atrás de grana, mas a constatação de que eu perderia aquele espaço, como tantos outros que eu já tenho perdido, me deixou triste.

Laranjeiras é um oásis dentro do Rio de Janeiro . É um bairro familiar onde coabitam o café moderninho, o sapateiro, a lavanderia, onde conhecemos pelo nome o jornaleiro, o chaveiro, o faz-tudo . Onde ainda se fala bom dia, boa tarde, e onde moram muitos velhinhos. Laranjeiras é tão diferente de tudo que não parece fazer parte da Zona Sul nem da Zona Norte. Até porque o seu início, ou fim, fica exatamente entre os dois irmãos-túneis Rebouças, lá pelas bandas do Cosme Velho. 

Apesar dos preços absurdos que assolaram o Rio de Janeiro, o bairro guarda a alma suburbana, ainda tem casebres antigos e uma classe média/baixa que se equilibra para fechar o mês, mas que na hora do aperto dá as mãos. Em 12 anos que moro ali, presenciei moradores ajudando a serrar, com o que tinham às mãos, uma árvore que caiu e obstruiu a rua; já vi gente socorrendo um vizinho doente; se cotizando para ajudar no tratamento de um amigo necessitado e sozinho.

Você pode estar pensando: “Mas o que tem de mais nisso?” Eu respondo: “Tudo.” Vivemos no mundo impessoal, individual, covarde. E deixamos certas coisas passarem por nossos olhos sem tomarmos as atitudes certas. Eu tento aprender no dia a dia a ser um pouco melhor, e Laranjeiras é um bom lugar para acreditar na humanidade.

Em época de eleições, quando somos obrigados a ver e ouvir gente que parece viver em outro planeta, numa dimensão paralela qualquer, canalhas de todas as classes — sem generalizar, é claro —, fico pensando que eu adoro mesmo é o cidadão comum, que olha nos meus olhos quando conversa, que tem coisas realmente interessantes para me dizer e ensinar, um ser palpável, visível, falível, admirável.

Não sei sequer o nome do Júnior. Mas lembrei-me agora de uma música de Vinicius e Toquinho que definiria bem meu personagem. “Eu sempre o cumprimentava porque parecia bom/ Um homem por trás dos óculos, como diria Drummond”.

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