Luis Pimentel: Observador de rua (2)

Sentiu que a poesia, forno a lenha que muitas vezes incendeia as almas, também pode ser remédio

Por O Dia

Rio - Poesia

— Eu fiz tudo o que um homem apaixonado pode fazer — repetia, a voz embargada e os olhos molhados.

O outro apenas ouvia.

— Vimos ‘Casablanca’ abraçadinhos, na TV, ‘O Vento Levou’ com pipocas no Odeon, Bibi Ferreira cantando Piaf no teatro.

E tome choro. O outro não dava um pio, mas prestava a maior atenção.

— Pedalinhos na Lagoa, sorvete na praia, baile de sábado no Elite, moqueca de siri domingueira em Guaratiba, Samba do Trabalhador na segunda do Renascença... Carreguei água no cesto por ela.

O outro, às vezes, balançava a cabeça.

— Imitei Miltinho, meio sonso e meio fanho, num rio caminho que anda e vai resmungando talvez uma dor. Recitei Vinicius, dei gravura emoldurada...

O outro, enfim, se manifestou:

— Sabe o que é? Poesia demais. Às vezes atrapalha mesmo.

Remédio
Quando a menina que ele pensava estar namorando disse: “Eu, hein, garoto, vá procurar sua turma”, sentiu um buraco enorme no peito.

Seguiu o seu caminho, uma pedra áspera entalada na garganta, até parar diante do alto-falante da praça, no momento exato em que Luiz Gonzaga entoava, numa prece descida das estrelas: “Automóvel ali não se sabe se é homem ou mulher/Quem é rico anda em burrico, quem é pobre anda a pé”.

O menino achou que uma nuvem morninha forrava o buraco do peito, amenizando toda a dor. Sentiu que a poesia, forno a lenha que muitas vezes incendeia as almas, também pode ser remédio.

Os pombos
O velho Pedro morava em apartamentinho térreo, prédio pequeno de cidade grande. Tinha boa janela com grade de correr, sempre aberta, o parapeito forrado de bagaços de milho e potinhos de água. Os pombos das redondezas faziam dali o paraíso, comida e bebida garantidas.

Vizinhos reclamavam, pombos trazem doença, fazem barulho, emporcalham a área. Seu Pedro os defendia com argumentos que lembravam Francisco de Assis. Todos consentiam em esquecer as manias do velho maluco, no fundo um santo homem.

Tinha um coração de ouro e técnica infalível. Pombo é bicho arisco, mas ele era mais. Toda noite pescava um, mão esquerda nas patinhas e direita no bico. Dali para a pia, as vísceras, penas e a cabeça enterradas num terreno baldio próximo, limão, sal e pimenta do reino para o refogado do dia seguinte.

Doença?, perguntava­se ele. A maior que conheço é a fome, respondia.

Um santo homem.

Erro
Obrigada a identificar o corpo do marido na geladeira do necrotério, a mulher se curva diante do tempo, do orgulho ferido, do despautério, do que faltou do amor e sobrou de desterro.

Então, confessa, horror, o horror:

Identifico, doutor, é ele, é ele, o meu erro.

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