Uma vida contada em amores

O cineasta Domingos de Oliveira lança autobiografia dividida em capítulos dedicados às suas mulheres

Por O Dia

Rio - ‘Sou o que as mulheres fizeram de mim”, dispara Domingos de Oliveira. E, já que o amor por elas foi o que guiou os 78 anos do cineasta e dramaturgo, por que não dedicar um capítulo de sua vida a cada uma delas? Foi o que ele fez. Os diários que escreveu por anos saíram do armário e se transformaram na autobiografia ‘Vida Minha’ (Ed. Record, 336 págs., R$ 55), que será lançada amanhã, às 19h, na Travessa do Leblon. A experiência foi tão forte que, em breve, também será publicado seu primeiro romance, ‘Antônio’.

Quase oito décadas de histórias, mais de uma centena de obras criadas para o cinema, teatro e TV, além de cinco casamentos. A questão era: por onde começar? “Minha memória não tem nada de contínua e é péssima. Ela é ótima para todos os sentimentos e impressões, mas não para os fatos”, conta Domingos, que, por fim, escolheu o caminho de seus amores.

Em seu apartamento%2C no Leblon%2C Domingos de Oliveira comemora o lançamento pela editora Record de sua autobiografia%2C ‘Vida Minha’ Bruno de Lima / Agência O Dia

“Sou cercado de mulheres. Onde eu estou, tem sempre umas dez ao meu redor. Eu poderia ter namorado o universo, mas fui sempre casado. Se eu comi 50, comi muito!”, comenta ele, soltando uma risada. A primeira grande paixão foi Eliana, com quem descobriu na prática o matrimônio.

Com Leila Diniz, tudo começou depois de uma festa de Natal em seu apartamento. De porre, só sobraram os dois. Ele dormia no chão, ela na poltrona. Ele disse que a cama era mais confortável e aquela foi a primeira noite de cinco anos de casamento.

Depois, durante uma fase de intensa boemia, quando chegou a torrar os seus dois apartamentos com bebida, conheceu Nazareth Ohana. A terceira mulher, ele descreve desta forma: “Foi a relação mais complicada que tive, porque era um casamento aberto, quase sem compromisso. Aberto como uma masmorra.”

Na década de 60, com Lenita, viveu o período mais hippie de sua vida. Leu toda a obra de Castañeda, experimentou o LSD e se mudou da Zona Sul carioca para Teresópolis. Aliás, foi lá onde nasceu sua única filha, Maria Mariana, “única mulher por quem nunca nutriu desejos eróticos”. Mas foi na atriz Priscilla Rozenbaum, 23 anos mais nova, que Domingos diz ter encontrado o amor de sua vida. O casamento foi há mais de três décadas e ainda dura.

Mesmo com uma existência dedicada às mulheres, Domingos desmente que as compreenda. “É mentira! Ninguém entende. Eu as estudo. Sou um cara bem feminino, delicado, romântico... Nasci assim! Tenho uma certa tendência a não amar, e sim a adorá-las”, conta ele, que, gaiato, completa: “Olho para uma mulher e parece até que já comi, tenho intimidade com elas!”

Amores à parte, a arte, o trabalho e até o Mal de Parkinson, com o qual convive há mais de 14 anos, também estão na autobiografia. “A arte é o que me impede de ficar o dia inteiro pensando na morte. A natureza tem uma ordem, ela criou você com uma vontade de viver enorme. Mas ela te dá o desejo, e não a capacidade de ser imortal. Está de sacanagem, né? Injusta!”, exclama.

O remédio para as angústias foi se entregar à arte e trabalhar com e para ela. Com vários projetos na gaveta, ele não para. “Escrevo o dia inteiro”, diz Domingos, que pretende conseguir uma distribuidora para lançar ‘Infância’. “Estou desempregado, não tenho dinheiro nenhum. O que tinha, gastei fazendo filmes para não ser escravo. Um homem precisa fazer o que gosta. Mas eu me viro, dinheiro pinta! Trabalho o dia inteiro, adoro. É meu jeito de fugir da realidade. O louco é aquele que enfrenta a realidade.”

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