João Pimentel: Férias 2 -  Não vale o escrito

Ao chegar na minha roça, em Benfica, senti que finalmente minhas férias começavam para valer

Por O Dia

Rio - É quinze real!

— Ahn?

— Quinze real o kit.

— Mas que kit, meu Deus?

— As duas cadeiras e a barraca.

— Ué, mas eu nem sei se vou sentar. Mal cheguei à praia e, de mais a mais, vamos ficar só uma horinha porque tenho que deixar minha namorada na rodoviária.

— Patrão, nem eu, nem você, dez real.

Pensei bem, refiz a conta e, já que eu não queria pagar nada e a vendedora queria os tais “quinze real”, nem ela, nem eu, pelos meus cálculos, resultaria em sete e cinquenta. Mas, antes de qualquer argumento matemático, ela tocou a real, quer dizer, a real dela:

— Ó, esse é meu trabalho, é domingo e eu não posso fazer por menos.

— Negócio fechado — entreguei os pontos.

Isso aconteceu na Praia da Ferradurinha, em Búzios. Mais cedo, tínhamos ido à Praia na Tartaruga e outra negociação rolou.

Para começar, a decepção com uma praia que, na minha lembrança, era um pequenino paraíso, e que hoje é loteada por barraqueiros que não deixam o turista andar dez metros sem ser abordado. E comigo não foi diferente.

— Vai uma caipirinha, bacana? Aqui tá em promoção.

— Não quer sentar, comer um peixinho?

Até que, depois de ser abordado por um italiano com cara de picareta e uma conversinha mole, surgiu um sujeito chamado Carlinhos, que quase esfregava o seu cardápio na minha cara.

Ao chegar na minha roça%2C em Benfica%2C senti que finalmente minhas férias começavam para valerDivulgação

— Olha só o que está escrito aqui. Lê o preço para mim — disse, apontando para o item “Moqueca de camarão para 2”, ou algo que o valha.

— R$ 130 — respondi.

— Errado, você está lendo errado. É R$ 100. E aqui?

— Ah, porção de camarão, R$ 90.

— Errado, é R$ 70.

Ou seja, o cardápio do Carlinhos tem um preço inicial, que ele deve empurrar para alguns gringos desavisados, e o preço real, que já é surrealista, para quem negociar, ou para dias de baixa.

Fiquei de saco cheio daquilo tudo, estava de férias e queria apenas descansar. Havia ficado encantado com a Búzios dos dias anteriores, dos dias de semana, quando a vida fluía de forma mais amena, com menos trânsito, com as praias menos poluídas de garrafas plásticas e outras porcarias.

À tarde, Mara foi embora. Na segunda-feira, o sol também partiu. E, na terça, resolvi meter o pé na estrada.

Saí da Búzios turística, ensolarada, e peguei a Serramar, uma linda estrada que liga a Região dos Lagos a Lumiar, passando por Casimiro de Abreu e pelo Vale do Sana. O tempo não estava dos melhores, mas a viagem foi espetacular e, ao chegar na minha roça, em Benfica, senti que finalmente minhas férias começavam para valer. Galinhas, vacas, cachoeiras, tudo em seu lugar. Sem pedágios, tarifas ou pequenas negociatas. Até o sol reapareceu.

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