Por daniela.lima
Luiz Antonio Simas%3A Aniversário no Dia dos MortosDivulgação

Rio - Dia de Finados bom é lá no México. A festa, apesar da origem católica da data, misturou-se ao rito asteca (povo que dominava a região antes da chegada dos espanhóis) de celebração dos mortos. Os mexicanos acreditam que neste dia os mortos visitam os vivos para se divertir e não querem tristeza. A ordem é comer, beber, dançar e cantar. As crianças se esbaldam com caveirinhas de açúcar e chocolates em forma de caixão, enfeitados com fitinhas roxas. 

O fuzuê mexicano é comandado pela deusa indígena Mictecacihuatl, mulher de Mictlantecuhtli, o senhor do reino dos mortos. A mestiçagem cultural fez com que a figura da deusa indígena fosse aproximada à de La Catrina, uma dama defunta que — em forma de esqueleto e sempre bem vestida — comanda o rega-bofe. La Catrina teve a imagem popularizada no século XIX pelas gravuras do pintor José Guadalupe Posada. 

Gosto de falar sobre isso porque nasci no Dia de Finados. A família cogitou registrar-me em outra data (era comum que isso acontecesse). Minha avó, ainda bem, proibiu a mudança, com argumentos místicos irrefutáveis. 

Lembro-me de um aniversário — eu devia ter uns 6 anos — em que fomos almoçar em família. Um vizinho mandou na lata, ao nos ver saindo para comemorar: “Vão a que cemitério?” 

Em outra ocasião, o negócio foi mais sério. Estava já na faculdade quando uma namorada resolveu me mandar flores no dia do aniversário. O entregador disse ao porteiro que as flores eram endereçadas a Luiz Antonio Simas. 

Tudo muito romântico, nos conformes. Acontece que o porteiro, ao se deparar com flores no Dia de Finados, concluiu que eu tinha morrido e espalhou a notícia do meu falecimento no prédio. Desfiz o engano aparecendo em carne e osso. 

Mas voltemos à infância. O fato é que eu achava ótimo esse negócio de ter nascido em 2 de novembro. Comecei a divulgar isso com empáfia quase aterrorizante. Alguém me perguntava qual era o dia do meu aniversário e eu respondia de forma teatral. 

Fazia uma expressão alucinada, ensaiava um tom de voz diferente, esbugalhava os olhos e mandava: “Nasci no dia dos mortos, dos vampiros e dos lobisomens (resolvi acrescentar, lá pelos 7 anos, esse negócio de vampiros e lobisomens, porque dava um tom mais assustador à coisa).” 

Permitam-me um último detalhe confessional. Ainda hoje, quando me perguntam sobre o dia do meu aniversário, retorno à infância profunda. Sinto-me o pirralho de cabeleira à Búfalo Bill, calço meu Kichute imaginário e respondo feliz, com a veemência orgulhosa de um asteca que faz da morte uma celebração da vida.

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