Por felipe.martins

Rio - Esbarrei com a Capitu da Rua Mem de Sá na esquina de Rua do Lavradio. Os olhos dissimulados, mas não tão oblíquos, manchados pela tintura da maquiagem que escorria dos cílios. Não estava chorando, é que chovia um pouco. A machadiana da Lapa parecia bem cansada. Ofereci uma cerveja. Preferiu conhaque e café. Chegava­se àquela hora em que beija­flores dão bicadas inocentes no chope do Bar Brasil, antes de pousarem no cabrito do Capela.

A Capitu retirou os fones do ouvido, ainda deu para se ouvir os últimos acordes do Cauby, e disse que tinha uma história muito triste para contar. Adoro histórias tristes, apurei as antenas.

Os bares e restaurantes da Lapa eram os preferidos na madruga: comida barata, bebida e conhecidos em todas as esquinas, além da atmosfera de suspense e mistério, anunciando que alguma coisa poderia acontecer a qualquer momento. Fazia um discurso pós­vigésimo copo, muito comum naqueles dias, em defesa das prostitutas — ressaltando sua luta, abandono, exposição à violência e doença, um papo desses. Há pouco entrevistara a presidente de uma associação da classe e estava cheio de informações e teorias sobre o assunto.

Só teoria. Na prática, ficava com a última declaração da combativa Gabriela Leite:

— Isso é conversa de sexólogo! Na cama o papo é outro.

A Capitu ouvia a tudo do balcão ao lado, depois encostou e disse que estava muito sensibilizada com o discurso. Mas que era a hora de alguém se preocupar com o drama dos inúmeros travestis expostos também ao abandono e à violência nesta cidade brutal. Concordamos, oferecemos bebida e a convidamos para se sentar em nossa mesa. Bebeu o café, bicou o conhaque, acendeu o cigarro espetado numa piteira comprida e perguntou se alguém ali seria capaz de adivinhar o seu nome.

As apostas em José, Nestor, Renato, Jorge e Raimundo foram perdidas.

Mostrou a carteira de identidade: Sandroval.

— Tem esse R mesmo? — eu perguntei. — Não seria Sandoval?

— Tem o R. Meu pai se chamava Sandro e minha mãe, Valéria.

Aí pediu que conferíssemos também em sua carteira a data de nascimento: fazia aniversário naquele dia que mal começara. Fizemos um brinde, pedimos uma porção de bolinhos de qualquer coisa, e ela/ele perguntou se poderia contar a história triste. Em seus dias de Sandroval, tivera um casamento heterossexual com uma prima, no interior do Ceará. Nasceram duas crianças, que são criadas por uma tia­avó, uma vez que a mulher morrera pouco depois dos nascimentos, de doença fulminante.

A Capitu da Mem de Sá era pai de dois filhos, o que mostra que vida também às vezes se mostra oblíqua e dissimulada.

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