Por daniela.lima

Rio - A ideia em si já traz ao filme um atrativo especial. ‘Boyhood’, de Richard Linklater, traça a história de uma disfuncional família de classe média norte-americana ao longo de 12 anos. OK, até aí nada. Porém, a produção REALMENTE se passa ao longo de 12 anos e a mudança física dos personagens, sobretudo do casal de irmãos Mason (Ellar Coltrane) e Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor) — que acompanhamos da infância à pós-adolescência — faz parte essencial da narrativa e do desenvolvimento dramático do filme, o que torna o desafio no mínimo cativante. 

Uma das cenas do longa ‘Boyhood’%2C que foi filmado durante 12 anosDivulgação


Afinal, como o diretor conseguiu segurar o pulso de filmar ano a ano durante mais de uma década a mesma história e dar coesão a um filme, não a um seriado? Nada mais ambicioso passou pelo Festival de Berlim deste ano, de onde o filme saiu com o Urso de Prata.

Difícil imaginar um roteiro prévio pré-definido a partir do momento em que algumas situações, como a eleição de Obama, ocorrem no decorrer da produção. ‘Boyhood’ dá a impressão de um “work in progress”em que o diretor tem o mérito de não perder a mão e manter admirável fluência, justamente reconhecida pela crítica internacional, que já o aponta como candidatíssimo ao Oscar de Melhor Filme.

Olivia (Patricia Arquette, espetacular) é uma matriarca de vida atribulada devido às confusas escolhas matrimoniais, que a levam constantemente a mudar de casa com os filhos. Mãe precoce de Mason e Samantha, ela mantém uma boa relação com o pai dos filhos, vivido com igual excelência por Ethan Hawke, enquanto pula de casamento em casamento. Seu personagem cresce com os tombos, ao contrário dos filhos, crianças enérgicas e vibrantes, que ao longo dos anos mergulham na catatonia, adotando um olhar cool sobre o mundo.

‘Boyhood’ não é um banho de mel. Lá estão o bullying, o alcoolismo, o patriotismo cego, o apego às armas, a religiosidade caipira e as rotineiras exigências por que passam os adolescentes. Mas, assim como nas suas experiências anteriores — como a trilogia ‘Antes do Amanhecer’ (1995), ‘Antes do Pôr-do-Sol’ (2004) e ‘Antes do Anoitecer’ (2013) —, filmes cuja história de um casal também se desenvolve ao longo de décadas, Linklater encara tudo com um distanciamento por vezes cínico, por vezes surpreendentemente crítico, mas nunca amargo diante do tempo e suas consequências. Afinal, como diz Mason, “é o tempo que nos aproveita”.

Se não é um filme de risadas largas, tampouco está longe do tédio sebento da visão dos personagens adolescentes. ‘Boyhood’ reúne uma série de instantâneos de uma América difícil de se ver: humana, frágil, complexa, que assusta e seduz com a mesma “nonchalance”. Sem a fragmentação obsessiva comum aos produtos americanos, o tempo no filme de Linklater expõe o que há de mais comum num país que se pretende sempre acima do comum: a vida como ela é.

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