Luiz Antônio Simas: A primeira barba a gente nunca esquece

O resultado é que adquiri por causa disso um trauma de infância. Tomei horror ao ato de fazer a barba

Por O Dia

Rio - Quando eu era um moleque saído das mamadeiras, passava uma propaganda de lâmina de barbear na televisão que me perturbava. Um sujeito aparecia em frente ao espelho do banheiro, besuntava creme no rosto e pegava a lâmina. Surgida do nada, uma loura de fechar o comércio acariciava o camarada e dizia com voz sedutora:

— Eu sou a Platina da Platinum Plus. Graças a mim, você faz melhor a barba.

Era demais para os meus 9, 10 anos. Comecei a delirar com a possibilidade de encontrar a loura da Platinum Plus em frente ao espelho.

Tomei então uma daquelas decisões que transformam os meninos em homens: era a hora de fazer a primeira barba, ainda que não tivesse um mísero fio no rosto. Juntei uns caraminguás que ganhava para comprar merenda no colégio e arrematei na farmácia da esquina o meu primeiro aparelho de barbear.

Tranquei-me secretamente no banheiro, passei o creme de barbear do meu avô no rosto e, trêmulo, tive a certeza de que sentiria a presença da louraça.

Foi devastador. Passei a lâmina com a fúria de uma vara de javalis e por pouco não retalhei inteiramente minha carinha de bumbum. Apavorado diante do sangue que jorrava, pedi socorro. Minha tia e minha avó correram para ver que diabo tinha ocorrido e lá estava eu, cheio de cortes.

As duas jogaram nos ferimentos a loção após barba vagabunda do meu avô. Nunca senti algo arder tanto. Minha tia ainda deu, sem piedade, um banho de Mertiolate nos cortes, para evitar inflamações (quem se lembra de como ardia o Mertiolate em antanho sabe o que isso significa).

O resultado é que adquiri por causa disso um trauma de infância. Tomei horror ao ato de fazer a barba; que desde então me parece de um primitivismo atroz. Não é coisa de gente civilizada.

Algumas pessoas identificam a perda da inocência no momento em que descobrem a inexistência do Papai Noel. Eu pouco me importei quando descobri que o Bom Velhinho, com suas renas e outros salamaleques, era apenas uma conversa pra boi dormir e deixar a criançada na ilusão de que a vida é boa.
O que destruiu mesmo minhas fantasias inocentes foi saber — de forma dolorosa — que a Platina da Platinum Plus era uma ilusão da propaganda machista e enganosa. Eu nunca seria acariciado no banheiro por uma mulher daquela.

A realidade é cruel: a única aparição de loura que um menino da minha idade arriscava encontrar por milagre, naquele tempo, era mesmo a morta com algodões ensanguentados nas narinas; aquela que atacava barbaramente as crianças nos banheiros dos colégios.

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