Por karilayn.areias
Ney em um dos momentos do show ‘Atento aos Sinais’%2C registrado em CD e DVD%3A figurino provocanteCristina Granato / Divulgação

Rio - Ney Matogrosso está tranquilo. Aos 73 anos, 41 de carreira, ele lança o CD e DVD ao vivo ‘Atento aos Sinais’ e o DVD do documentário ‘Olho Nu’, de Joel Pizzini, estrelado por ele. Na sequência, vai para Las Vegas, onde recebe, no dia 19, o prêmio especial pelo conjunto da obra, na 15ª edição do Grammy Latino. Enquanto isso, segue em turnê, sem ansiedade em relação ao próximo disco.

“Pela primeira vez em muitos anos, muitos mesmo, não tenho nada em mente para o próximo passo e não estou aflito, estou sereno diante desse fato”, garante ele. “Por enquanto, eu estou ligado totalmente nesse show (atual). Vou ficar fazendo enquanto houver interesse. Estou misteriosamente despreocupado”, diz.

Mas, ao ser cutucado, ele acaba revelando um desejo antigo: gravar um álbum dedicado às canções de Caetano Veloso. “Eu sou tiete do Caetano desde que o vi pela primeira vez. Acho que eu poderia fazer um trabalho sobre a obra dele. Tenho a ideia há muito tempo, só não sei se vou me debruçar sobre ela agora”, revela. “Outro dia, peguei todos os discos dele, que guardo numa caixa, para ouvir. Fui ouvindo, marcando coisas que gosto. Mas assim, despretensiosamente.”

Se, por um lado, ele pode ser considerado “o David Bowie brasileiro” — pelos figurinos extravagantes e uma sensualidade que encanta homens e mulheres —, por outro, ao contrário do ídolo inglês, Ney continua provocador como sempre. “É muito natural, não é uma coisa que eu pense: ‘Não vou encaretar’. O meu pensamento é livre.”

No DVD, gravado em junho deste ano no HSBC Tom Brasil, em São Paulo, com direção de Felipe Nepomuceno, ele enlouquece a plateia com figurinos e danças sexy. O repertório vai de Martinho da Vila (‘Ex-Amor’) e Paulinho da Viola (‘Roendo as Unhas’) a artistas novos como a banda Tono (‘Não Consigo’ e ‘Samba do Blackberry’), passando pelo ‘maldito’ Itamar Assumpção (‘Noite Torta’, ‘Isso não vai ficar assim’ e ‘Fico Louco’). Para Ney, apesar de o público ainda ficar elétrico, ele já o conhece bem.

“Quando eu surgi, naquele momento eu talvez representasse uma possibilidade de reação que não fosse a reação armada à ditadura. Era um ser humano exigindo seus direitos respeitados”, conta. “Hoje em dia, há uma intimidade, uma cumplicidade. Olho para a plateia como se fosse um namoro de 40 anos. Passamos por várias fases e hoje estamos naquela fase tranquila”, diverte-se.

E, por falar no regime militar, Ney se espanta que haja quem peça a volta da ditadura. “É um absurdo. Quem defende isso é porque não viu, não sabe do que se trata. Ditadura nenhuma presta, nem socialista, nem dos militares”, atesta ele. “O que me impressiona é que está havendo uma concentração desse pensamento mais conservador. Sei que a história do ser humano não é linear, você vai para a frente e depois para trás, para a frente de novo... O que acontece hoje em dia é que está tudo às claras. O que não é exatamente ruim, saber o que você tem que enfrentar. Quanto mais os direitos têm que ser respeitados legalmente, mais se levantam contra esses direitos”, analisa.

Sobre o documentário ‘Olho Nu’, ele comenta que boa parte do conteúdo utilizado no filme era dele, que cedeu 300 horas de gravações para a equipe do longa. Imagens que ele não via há muitos anos. “Foi interessante rever. Acho que tem uma coerência de pensamento nesses 40 anos que se passaram.”

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