Luís Pimentel: Morengueira não deu moleza pra micróbio

Não gravava há algum tempo, mas ainda era um patrimônio dos mais respeitáveis da nossa MPB

Por O Dia

Rio - A última entrevista de Antônio Moreira da Silva, o Kid Morengueira, foi concedida à revista ‘Música Brasileira’, em maio do ano 2000. Fui recebido com água mineral e café (o malandro com fama de boêmio jamais bebeu álcool) em sua casa, bairro do Catumbi, Rio de Janeiro. Dois dias depois, Moreira levou um tombo dentro de casa e foi internado no Hospital dos Servidores do Estado. A saúde se complicou e ele morreu dia 6 de junho, de falência múltipla dos órgãos. Completara 98 anos de idade (nasceu dia 1º de abril de 1902) e continuava exercendo o seu ofício. No momento da entrevista, era o mais antigo cantor em atividade no mundo.

Não gravava há algum tempo, mas ainda era um patrimônio dos mais respeitáveis da nossa MPB, com mais de cem discos. Por influência de Ismael Silva, gravou o primeiro em 1931. No ano seguinte, conheceu pela primeira vez o sucesso, com a gravação de ‘Arrasta a Sandália’ (“Arrasta a sandália aí, morena/...Arrasta a sandália aí, no terreiro/ Arrasta que custou o meu dinheiro...”), de Benedito Lacerda, Aurélio Gomes e Baiaco. Entre as décadas de 1930 e 1960, gravou todos os seus grandes sucessos, que incluíam ainda ‘Amigo Urso’ e ‘Fui a Paris’ (parcerias com Ribeiro Cunha), ‘Dormi no Molhado’ (assinado por ele, mas comprado do compositor Zé da Zilda por 150 mil réis, segundo declaração do próprio Moreira ao jornal ‘O Pasquim’), ‘Conversa de Camelô’ (T. Silva e S. Valença), ‘Na Subida do Morro’ (vendida por Geraldo Pereira, como ele explica adiante) e outros sucessos.

Alguns trechos da entrevista:

— Noventa e oito anos cravadinhos, hein, Morengueira?! E como está a saúde?
— Nos trinques. Pressão doze por nove, colesterol de menino e coração a mil. Estou diabético, mas isso eu tiro de letra.

— Há quanto tempo não grava?
— As gravadoras têm preferido outras coisas. Tá cheio de cantorzinho por aí, cantando bonitinho, requebrando a bundinha.

— Já precisou vender e comprar samba?
— Comprei, vendi, emprestei, negociei, entrei em parceria. Geraldo Pereira me vendeu um samba por um conto e trezentos.

— Foi o ‘Na Subida do Morro’?
— Foi. Depois dei forra, colocando o nome dele na parceria de ‘Acertei no Milhar’, que era só do Wilson Batista.

— Você foi muito namorador. Continua?
— Elas que me namoravam. E até hoje eu continuo maltratando corações. Outro dia mesmo uma moça olhou pra mim e disse “ganhei o dia”. Mas estou meio devagar, apesar de que, vez em quando, vejo umas imagens na televisão e “o malandro suspira”...

— Você mora em frente ao Cemitério do Catumbi. Uma vez disse que isso era bom porque “qualquer coisa, era só atravessar a rua”...
— Não quero mais ser enterrado. Fui ao cartório e registrei minha última vontade: quero ser cremado. Não vou dar moleza pra micróbio...

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