Ricardo Cota: Séries de TV se aproximam cada vez mais do cinema

É como se os seriados correspondessem aos ansiolíticose os longas aos florais de Bach

Por O Dia

Rio - Aproximidade entre as séries de TV contemporâneas e o cinema nunca foi tão pequena. Hoje, não apenas as novas gerações se reúnem para discutir a mais recente sensação da temporada, mas mesmo cinéfilos de carteirinha superam preconceitos e confessam seus seriados favoritos, enumerando virtudes e qualidades dignas das melhores obras já exibidas em tela grande.

A evidência pôde ser constatada na última terça-feira, durante a aula magna concedida por Dan Attias no Estação Rio. O evento fez parte da segunda temporada do NET Lab TV, cujo propósito é justamente estimular novas ideias para séries televisivas, julgando roteiros, oferecendo laboratórios de escrita e ouvindo profissionais especialistas no assunto. Pela lotação da sala deu para notar que o que não falta é gente interessada.

Diretor de episódios para séries consagradas como ‘Sopranos’, ‘House’, ‘Walking Dead’e ‘True Blood’, Dan Attias ilustrou sua fala com sequências que só evidenciam a aproximação da linguagem cinematográfica com a narrativa dos seriados, mostrando que existe sim um novo conceito de elaboração das narrativas em série.

Na sequência de ‘House’, por exemplo, Dan diz ter nitidamente se inspirado no olhar subjetivo do personagem de ‘O Escafandro e a Borboleta’, dirigido por Julian Schnabel, que recebeu o Grande Prêmio Técnico do Festival de Cannes, em 2007. Outros reflexos se podem ver nos diálogos naturalistas de ‘Sopranos’, que remetem a Martin Scorsese e nos movimentos de câmera elaborados de ‘The Walking Dead’, puramente cinematográficos.

Antes da palestra, numa mesa redonda coordenada por Belisário França, o cineasta e roteirista Felipe Barcinski contribuiu para reforçar esta aproximação. Barcinski lembrou que no passado cinema e séries de TV tinham formatos bem específicos. Enquanto ao cinema cabia estruturar narrativas mais longas, aos seriados destinava-se um formato mais imediatista, em torno de 25 minutos, cujas histórias fechavam-se em si.

Hoje, basta assistir a séries como ‘Game of Thrones’, ‘Mad Men’ e ‘Breaking Bad’, para conferir como as narrativas se sofisticaram, exigindo um controle cada vez maior dos criadores e dos roteiristas, a quem cabe a difícil tarefa de coordenar temporadas que se estendem por anos e de dar o corte final a cada um dos episódios. Com a ajuda do produtor, claro.

De toda forma, como bem observou o mesmo Barcinski, a linguagem fragmentada dos seriados atende a uma sociedade de consumo aflita e ansiosa, enquanto ao cinema cabe o salutar exercício mental de manter os espectadores ao longo de duas horas diante de uma obra contínua. É como se os seriados correspondessem aos ansiolíticos e os longas aos florais de Bach. Pode ser que aí ainda esteja a grande diferença entre as duas janelas de exibição. E é bom que assim persista. Mas para isso é preciso desligar os celulares durante as sessões.



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