Por nicolas.satriano

Rio - Moro praticamente ao lado de dois estabelecimentos fundamentais para que eu tenha uma vida tranquila: uma quitanda decente, onde o sujeito encontra de tudo para emerg√™ncias do lar, e um botequim de grande categoria; um p√©-sujo da melhor qualidade. Refiro-me, em rela√ß√£o ao botequim, ao Bode Cheiroso, na Rua General Canabarro, no Maracan√£.

Os sabich√Ķes que manjam de etimologia garantem que a origem remota da palavra botequim est√° no termo grego apoth√©k√© (dep√≥sito); que originou tamb√©m botica, biblioteca e bodega.

Pois o bom botequim √© isso tudo: um centro de difus√£o do saber, como as bibliotecas; um lugar onde se preparam medicamentos para o corpo e a alma, como as boticas (o Bode serve um ch√° de macaco que ressuscita defunto); e uma taberna onde se come e se bebe com simplicidade, sabor e sust√Ęncia, como as bodegas.

O Bode est√° na contram√£o dos chamados p√©s-limpos; aqueles simulacros de botecos de grife que mais parecem verdadeiros McDonald‚Äôs de candidatos a pingu√ßos. A dignidade do estabelecimento j√° come√ßa pelo nome. Nenhum marqueteiro, assessor de imprensa (sim, acreditem, alguns ‚Äúbotecos‚ÄĚ de grife t√™m equipe de assessoria de imprensa), ou coisa que o valha, admitiria um nome desses para designar o local: Bode Cheiroso.

Registre-se que, como os botequins de boa pipa, o Bode tem um nome oficial que quase ninguém conhece: Bar Macaense.

Tocado pela mesma fam√≠lia h√° tr√™s gera√ß√Ķes, evidentemente de origem portuguesa, o Bode n√£o sucumbiu aos programadores visuais moderninhos, arquitetos e designers de vanguarda, que andam estra√ßalhando botequins com as suas obsess√Ķes p√≥s-modernas e desejos de, como eles gostam de dizer, interferir nos ambientes.

E tome de pés-limpos que mais parecem misturas de enfermarias assépticas, salas de reconhecimento de corpos do Instituto Médico Legal e galerias de arte descoladas; daquelas em que um sujeito desavisado pode apostar que a lata de lixo é a escultura e a escultura é a lata de lixo.

P√© de pato, mangal√ī, tr√™s vezes. Que isso n√£o ocorra e eu continue tendo, ao morar perto do Bode Cheiroso, o mesmo prazer que tinha de morar perto do Maracan√£, antes de o est√°dio ser transformado em uma arena despersonalizada, como outra qualquer.

Não sou profeta e não conduzo ninguém. Quero apenas ter o direito de buscar, quando a tarde cai numa esquina da Zona Norte carioca, o meu cadinho da Canaã, a terra prometida aos homens simples de boa vontade; entre um ovo colorido, uma porção de pernil de lamber os beiços, uns tremoços da terrinha e as ampolas geladas feito bunda de foca.

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