Luiz Antonio Simas: Botica, bodega e biblioteca: o Bode

Tocado pela mesma família há três gerações, o Bode não sucumbiu aos programadores visuais moderninhos

Por O Dia

Rio - Moro praticamente ao lado de dois estabelecimentos fundamentais para que eu tenha uma vida tranquila: uma quitanda decente, onde o sujeito encontra de tudo para emergências do lar, e um botequim de grande categoria; um pé-sujo da melhor qualidade. Refiro-me, em relação ao botequim, ao Bode Cheiroso, na Rua General Canabarro, no Maracanã.

Os sabichões que manjam de etimologia garantem que a origem remota da palavra botequim está no termo grego apothéké (depósito); que originou também botica, biblioteca e bodega.

Pois o bom botequim é isso tudo: um centro de difusão do saber, como as bibliotecas; um lugar onde se preparam medicamentos para o corpo e a alma, como as boticas (o Bode serve um chá de macaco que ressuscita defunto); e uma taberna onde se come e se bebe com simplicidade, sabor e sustância, como as bodegas.

O Bode está na contramão dos chamados pés-limpos; aqueles simulacros de botecos de grife que mais parecem verdadeiros McDonald’s de candidatos a pinguços. A dignidade do estabelecimento já começa pelo nome. Nenhum marqueteiro, assessor de imprensa (sim, acreditem, alguns “botecos” de grife têm equipe de assessoria de imprensa), ou coisa que o valha, admitiria um nome desses para designar o local: Bode Cheiroso.

Registre-se que, como os botequins de boa pipa, o Bode tem um nome oficial que quase ninguém conhece: Bar Macaense.

Tocado pela mesma família há três gerações, evidentemente de origem portuguesa, o Bode não sucumbiu aos programadores visuais moderninhos, arquitetos e designers de vanguarda, que andam estraçalhando botequins com as suas obsessões pós-modernas e desejos de, como eles gostam de dizer, interferir nos ambientes.

E tome de pés-limpos que mais parecem misturas de enfermarias assépticas, salas de reconhecimento de corpos do Instituto Médico Legal e galerias de arte descoladas; daquelas em que um sujeito desavisado pode apostar que a lata de lixo é a escultura e a escultura é a lata de lixo.

Pé de pato, mangalô, três vezes. Que isso não ocorra e eu continue tendo, ao morar perto do Bode Cheiroso, o mesmo prazer que tinha de morar perto do Maracanã, antes de o estádio ser transformado em uma arena despersonalizada, como outra qualquer.

Não sou profeta e não conduzo ninguém. Quero apenas ter o direito de buscar, quando a tarde cai numa esquina da Zona Norte carioca, o meu cadinho da Canaã, a terra prometida aos homens simples de boa vontade; entre um ovo colorido, uma porção de pernil de lamber os beiços, uns tremoços da terrinha e as ampolas geladas feito bunda de foca.

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