João Pimentel: Dona Lina ali na China

Um país com um histórico de exilados políticos como o nosso, deveria rever também esse tipo de exílio

Por O Dia

João Pimentel%3A Dona Lina ali na ChinaDivulgação

Rio - Não sei quando ela apareceu na minha vida. Três anos, sei lá. Ela trabalhava na casa de uns amigos e eu precisava urgentemente de alguém para me ajudar nos afazeres domésticos. Em suma, uma diarista. Minha experiência anterior foi no mínimo curiosa. Gleid, que logo ganhou o apelido de Gleid Sachê, não era muito afeita a horários, mas era uma figura sensacional. Pregava quadros na parede, pendurava conta no armazém quando dava por falta de algum produto em casa, e acabou tornando-se atriz de uns filmes bizarros que fiz para o festival independente ‘A Organização’. Num dos filmes, ‘Instantâneo’, ela narrava a história de um dente que caiu dentro de um Miojo e que depois foi colado com uma supercola. Depois de dar sua receita para tão especial iguaria, ela jogava o macarrão na parede para ver se colava.

Certo dia, Gleid chegou à conclusão que trabalhar dava trabalho e saiu da minha vida. Quer dizer, em parte, porque é minha amiga e nos falamos vez por outra. Mas é aí que entra Dona Lina. Como eu já disse, ela veio por intermédio de amigos. E foram estes amigos que me contaram, por alto, a história desta senhora de mais ou menos uns 65 anos. Baiana, de família muito pobre, ainda criança foi dada para uma família carioca, no início dos anos 60, que prometeu cuidar dela. O cuidar dela significou morar em um quartinho, trabalhar 14 horas por dia em troca de um prato de comida. Não teve direito sequer a estudar. Uma escrava.

Até que um dia uma colega explicou que aquilo estava errado, que ela precisava arrumar um emprego, ganhar um salário, ganhar o mundo. Quer dizer, o mundo possível. E Dona Lina saiu por aí em busca do seu espaço. Trabalhou em dezenas de subempregos, criou um filho que sustenta até hoje com o suor de seu corpinho castigado pelo tempo. Aos 20 anos, ele pouco faz para ajudá­la.

Dona Lina carrega como herança, além de todas as tristezas da vida, o fardo de ser analfabeta. Não sabe programar o micro-ondas, tem dificuldade para discar um número de telefone e, por conta disso, desenvolveu uma subserviência, um medo diante dos desafios mais simples do dia a dia e uma carência afetiva que por vezes, na correria diária, me tirava do sério.

— Seu João, posso beber água? Seu João, a sua roupa está passadinha. Seu João, o meu telefone parou de receber chamadas. Seu João, Seu João, Seu João...

Na semana passada, a quarta-feira seria sem água na rua. Dona Emília, minha senhoria me avisou na terça e, claro, não consegui falar com Dona Lina. De manhã, precisava sair de casa, mas como avisá-la para não usar a máquina de lavar roupas?

Pedi ajuda a uma vizinha, Gabriela, para dar o recado. Ela tinha seus afazeres mas prometeu ficar de ouvidos atentos. Por desencargo de consciência e desespero, deixei um bilhete com letras garrafais em cima da lavadora: “NÃO USAR A MÁQUINA DE LAVAR.”

Antes de ir para o trabalho resolvi passar em casa para tentar evitar a seca na vizinhança e lá estava ela e com seu sorriso tortinho: “Seu João, eu gaguejei um pouco mas consegui ler o bilhete.”

Então, pela primeira vez ela tocou no assunto. Disse­me, orgulhosa, que tinha frequentado algumas poucas aulas, perto de casa, mas que abandonara por falta de tempo, mas algumas coisas conseguia entender.

Um amigo, professor , Maurinho, definiu com uma imagem genial sua visão do analfabetismo: “É como se a pessoa morasse na China. Quando Dona Lina sai às ruas, as placas, os números, os cartazes estão escritos em chinês.”

Outra amiga, Simone, mulher de Maurinho, professora que já alfabetizou muitas Donas Linas, ficou sensibilizada com sua história e promete trazê-la de volta da China. Estamos tramando contra mais esta ameaça comunista.

Um país com um histórico de exilados políticos como o nosso, deveria rever também esse tipo de exílio, que exclui, que limita, que relega a uma vida paralela pessoas puras, inocentes e boas como Dona Lina.

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