Luiz Antônio Simas: Cenas de dezembro

A criança abre o berreiro, os pais insistem, jogam o menor no colo do Bom Velhinho e dizem o tradicional 'abre um sorriso'

Por O Dia

Rio - Do meu posto de observação na Zona Norte encaro o mês de dezembro como um período de transe coletivo. Tento me manter discreto, verificando nas ruas, botequins, farmácias e mercados (ótimos postos de observação do comportamento humano) como o humor das pessoas se altera nessa época de festas.

Dia desses, vi um sujeito pacífico perdendo as estribeiras na Praça Saens Peña. O cabra começou a declarar publicamente, com olhar esbugalhado e voz de comício, que matará a própria tia na véspera do Natal. O distinto declarou não aguentar mais o número clássico da velha anunciando a própria morte.

O caso merece breve explicação. Toda família tijucana que se preza tem pelo menos uma tia que, no auge da festa de Natal, cai em prantos, anuncia que morrerá em breve e estraga a ceia. A frase é geralmente a mesma, com pouquíssimas variações: “Eu quero dizer que esse é meu último Natal; no ano que vem não estarei mais aqui.” No ano seguinte lá está ela, vivinha da silva, anunciando a morte próxima.

É evidente que o camarada, mais manso que uma pomba no ombro de São Francisco de Assis, não matará a tia. A bravata é típica do destempero que acomete as pessoas em dezembro.

Outro fato que merece observação: os adultos realmente acham que as crianças gostam de tirar fotos com o Papai Noel do shopping. Salvo exceções, a cena se repete sempre. A criança abre o berreiro, os pais insistem, jogam o menor no colo do Bom Velhinho e dizem o tradicional “abre um sorriso”. O Papai Noel, a maior vítima dessa história, tem que manter a pose para garantir os caraminguás da ceia.

Em dezembro do ano passado, presenciei uma cena notável. Estava tomando uns birinaites, no início da noite, no Columbinha, na Haddock Lobo, quando observei um garoto tendo um ataque na calçada, diante dos pais. O pequeno visigodo gritava, no chilique, que queria ver imediatamente a árvore de Natal da Lagoa.
Aproximou-se dele, com grande tino psicológico, um sujeito com pinta de oriundo do cangaço e cheio de cangebrina. O cidadão disse ao moleque: “Vou te mostrar uma iluminação muito mais bonita que a da árvore da Lagoa, que é mixuruca. Olha lá.”

E apontou para o Motel Palácio do Rei, do outro lado da rua, que acendia naquele momento um letreiro feérico, com um efeito especial de pisca-pisca que desenhava a silhueta do Papai e da Mamãe Noel em trajes sumários.

O auge da performance foi quando os pinguços do Columbinha aplaudiram o letreiro do motel com a mesma sensibilidade e integração à natureza com que a turma descolada do Posto Nove aplaude o pôr do sol. O menino sorriu.

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