João Pimentel: Nome aos bons

É a história mostrando que a música não tem barreiras

Por O Dia

Rio - Primeiro é necessário que eu faça um mea-culpa. Quer dizer, talvez uma meia culpa. Tá bom, a culpa é toda minha, mas não tive a menor intenção. Desde sempre, muito antes de eu sonhar em ser um jornalista — algo com que, na verdade, nunca sonhei, apenas aconteceu naturalmente — eu já era fã de Zeca Pagodinho.

Daqueles que ficam na porta da loja esperando chegar o novo disco. Isso quando existia loja. E assim foi em 1995, ano em que chegou ao mercado ‘Samba pras Moças’, um discaço, que, como seu sucessor, ‘Deixa Clarear’, marcaram o retorno do sambista ao topo das paradas de sucesso.

Pois bem, ou pois mal, neste disco tem um samba do próprio Zeca, ‘Pagode a Dona Didi’, em que ele conta a história que foi cantar um partido para se distrair, na casa da tal Dona Didi, mas o pagode virou a maior confusão.

Em determinado momento, ele versa: “Eu já estava pressentindo/ Vem coisa ruim por aí/ Ao perceber que flertavam/ Esguleba com Dona Didi”. Foi aí que eu me quebrei. Eu acabara de ganhar uma cachorra meio destrambelhada, animada, apaixonante e que amenizara o sumiço de uma outra cadela, Kaya, que fugiu em um dia de chuva. Pronto, Esguleba foi o nome escolhido. Acreditava que era uma mulher, um personagem fictício... Eu só não sabia que este era o apelido de um dos melhores percussionistas brasileiros, que há mais de duas décadas acompanha o Zeca mundo afora.

Já trabalhando com música, conheci o grande Esguleba e, envergonhado, nunca toquei no assunto. Até que no enterro do grande Osmar, cavaquinho da Velha Guarda da Portela, outro grande amigo do samba, sei lá por que cargas d’água, Ilton do Candongueiro conta esta história para o Esguleba. Temi levar uma bronca inesquecível.

Nada, ele me olhou com uma cara séria e, bem ao seu estilo, mudou de assunto. Anos depois, Marcos Esguleba casou com uma grande amiga, Bebel, e a vida seguiu sem transtornos.

Precisei deste enorme preâmbulo para contar, feliz, que há algumas semanas recebi um telefonema de Esguleba para uma audição do primeiro disco do Grupo Semente, na casa de outro gênio da percussão brasileira, Mestre Trambique, no Morro dos Macacos, em Vila Isabel.

Estavam todos lá: os dois batuqueiros, o violonista Bernardo Dantas, o cavaquinista João Callado e o cantor e multi-instrumentista Bruno Barreto. Foi um dia pra lá de especial. Primeiro, o encontro foi um grande papo entre velhos e novos amigos, em um quintal espetacular. Ouvimos o disco em um som precário, mas me contaram a história de cada faixa, das (boas) escolhas feitas pelo grupo.

Faço parte da vida do Semente também por uma história curiosa. O grupo nasceu na casa de mesmo nome, ponto de encontro informal e formal dos melhores músicos brasileiros, e ganhou fama acompanhando a cantora Teresa Cristina. Pedro Miranda também fez parte do grupo, antes de seguir sua luz própria. Anos depois, Pedro e Teresa me contaram que fui eu que dei o nome ao grupo, em uma matéria. Não lembrava. Está vendo, Esguleba, nem sempre eu erro ao dar nomes aos bons.

O Semente sintetiza o que há de melhor na Lapa, o encontro de músicos de origens e estilos diferentes. É a história mostrando que a música não tem barreiras, a não ser a da qualidade musical. O disco produzido pela turma é daqueles para ouvir em casa, saboreando cada nota, cada samba. Mas também para deixar rolando no quintal, no churrasco, vida afora. Nesta terça-feira, eles estarão ao vivo no palco do Rival e eu quero continuar por perto desses caras.

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