João Pimentel: Noite de Natal

Tenho lembranças curiosas do tempo em que acreditava no generoso velhinho

Por O Dia

Tenho lembranças curiosas do tempo em que acreditava no generoso velhinhoAgência O Dia

Rio - Foi no camarim do show de uma amiga, Tatiana Dauster, que o produtor Geraldinho Magalhães me contou uma piada natalina. Um menino pobre manda uma cartinha ao Papai Noel, pedindo R$ 50 para comprar presentes para a mãe, para o pai e para o irmãozinho. Um carteiro, ao ver a inusitada correspondência, abre o envelope e, tocado pelo espírito natalino, reúne alguns colegas para tentar realizar o desejo da criança.

Conseguem apenas o montante de R$ 30. Felizes, enviam o dinheiro para o endereço do remetente.
Passados dois dias, o carteiro vê outra carta do mesmo menino. Torna a violar, com a melhor das intenções, a correspondência, e surpreende-se com o teor do bilhete: “Papai Noel, da próxima vez, favor entregar pessoalmente o meu presente. O carteiro pegou R$ 20 para ele.”

Essa piada, muito mais engraçada quando contada com o sotaque pernambucano do impagável amigo, lembrou-me de uma história recente. Antônio, filho de um casal de amigos e meu afilhado adotivo, foi ao shopping com a mãe, Luciana. Ao dar de cara com um Papai Noel, não teve dúvidas: escreveu um bilhete, pedindo uma chuteira cor-de-rosa, que é moda entre a criançada. Na saída, do “alto” dos seus 7 anos, comentou com a mãe: “O Pedro (o irmão de 13) é muito mané de não ter vindo com a gente, já até garanti o meu presente de Natal.”

A mãe foi atrás do presente e, não encontrando, caiu na besteira de comentar: “Não estou encontrando aquela chuteira que você pediu.” A resposta veio em forma de um ataque digno do ‘Pequeno Nicolau’, personagem genial de Goscinny e Sempé: “Tá vendo, Papai Noel não existe, é você quem compra os presentes.”

A mãe tentou consertar, dizendo que Papai Noel pediu uma ajuda, porque no Polo Norte não existia loja da fornecedora das tais chuteiras. Antônio aceitou o argumento, não sem antes perguntar se Papai Noel sabia ler bilhete em letra cursiva. Lu conclui, em delicioso post no Facebook, que Antônio “está naquela fase da infância em que a fantasia resiste bravamente às ofensivas da realidade”.

Não lembro quando a realidade acabou com minha fantasia infantil, mas tenho lembranças curiosas do tempo em que acreditava no generoso velhinho. Minha mãe fazia todo o teatro. Meia na janela, campainha tocando, presentes escondidos, essas coisas. Já meu pai, sempre que eu e meu irmão falávamos em presentes, cantava uma musiquinha nada convincente: “Nunca passei um Natal tão chato, Papai Noel fez cocô no meu sapato.” Não tenho a menor ideia de onde saiu aquela canção. Mas o certo é que minha mãe não gostava muito. Com toda a razão.

Mas uma outra canção, esta, com certeza, de autoria do meu pai, me faz pensar na noite de Natal com a visão espiritualizada de minha avó Vera, e seus ensinamentos de que os presentes de Deus são outros: “Nesta noite de Natal, eu queria repartir com vocês a cerveja e a minha alegria/Como aconteceu tempos atrás, pra vocês nessa noite muito amor e muita paz/ Nessa noite de Natal é que eu digo/ Que se encontre em cada canto um amigo/Assim como eu sou pra vocês, bem legal/É o que espero nessa noite de Natal.”

Isso é tudo de melhor que eu posso desejar a todos na noite de Natal: uma cerveja com os amigos, boas lembranças dos que já se foram, saborosas risadas com os que estão na área, compreensão das diferenças, paz, amor e um país mais sério. Ah, e se possível, Papai Noel, a chuteira cor-de-rosa do Antônio.

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