Luis Pimentel: Hô! Hô! Hô! Hô!

Pensou que eu fosse amolecer, mané?! Tu acredita em Papai Noel?

Por O Dia

Rio - Foi no Natal que passou. Papai Noel suava de dar pena, a roupa imprópria para os trópicos, de veludo vermelho grosso feito uma lona, pesava mais ainda por conta do suor e da sujeira acumulados a cada ano. Colada ao corpo, coçava que era um desespero. A barba de algodão começando a virar uma pasta ensebada. Ô, dureza!

Gritava Hô! Hô! Hô! Hô! pelas ruas do Centro, pra lá e pra cá. Hô! Hô! Hô! Hô!, com o saco vermelho às costas, cheio de papel amassado e caixas de presente vazias, o que aumentava mais ainda a sensação insuportável de calor.

Pensou que eu fosse amolecer%2C mané%3F! Tu acredita em Papai Noel%3F Reprodução Internet

Na esquina de Buenos Aires com Uruguaiana parou para tomar um refresco no vendedor ambulante. Encontrou um coligado, atravessador de celulares, parceiro lá de Brás de Pina, e desabafou:

— Ano que vem não faço mais essa merda!

O outro se espantou:

Onde já se viu, Noel, quase um santo, falando essas coisas?

Moleque que acompanhava a mãe às compras fingiu fazer um agrado e beliscou a bunda do Bom Velhinho.

— Está vendo aí? Alguém merece?

O amigo sorriu. Hô! Hô! Hô! Hô!, esbarrando em sacolas, o tênis chafurdando nas poças sob a chuvinha miúda. As crianças sentavam no colo e puxavam a barba do infeliz:

— Papai Noel! Papai Noel!

Tome celulares, máquinas fotográficas, flashes, flashes, vira o rosto, agora um selfie, abraça o gordinho, põe a magricela no ombro, passa a mão no rosto do remelento. Não enxergava a hora de encerrar a via-crúcis, com o fim da jornada puxada de nove horas, e embarcar no seu buzão com destino ao boteco mais próximo de casa.

No fim do dia, Papai Noel — que se chamava Vitalino ou Aureliano — tirou a roupa de guerra, mais a barba e todos os apetrechos, e enfiou tudo no saco de batalha. Recebeu a diária e seguiu pela Rua da Alfândega, pés cheios de calos e dever cumprido.

Não chegou à Central do Brasil. Rendido antes do Campo de Santana, entregou o dinheiro e o saco. Tentou argumentar, que deixassem pelo menos sua farda natalina, indumentária indispensável na hora de ganhar o pão.

O assaltante colocou a roupa e o tênis dentro do saco. Encarou Vitalino ou Aureliano, que tremia feito vara verde, só de cuecas:

— Pensando bem, já que é o teu ganha-pão...

Suspirou aliviado:

— Beleza, irmão.

— Pensando melhor ainda... Vou fazer o maior sucesso lá em casa, quando aparecer com essa fantasia.

— Caraca...

— Pensou que eu fosse amolecer, mané?! Tu acredita em Papai Noel? Hô! Hô! Hô! Hô!

E sumiu na direção da Barão de São Félix.

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