Luiz Antonio Simas: Desejos para 2015

Desejo aos amigos a cerveja gelada, o fígado em ordem, o coração nos conformes, os amigos presentes...

Por O Dia

Em 2015 desejo aos amigos a cerveja gelada%2C o fígado em ordem%2C o coração nos conformes%2C os amigos presentes...Agência O Dia

Rio - Quando eu era um moleque recém-saído das mamadeiras, acreditava com ardor em dois personagens de carne e osso que se encontravam por alguns instantes entre a meia-noite do dia 31 de dezembro e os primeiros segundos de janeiro: o Ano Velho, um ancião com barba de profeta e mais curvado que o Frei Damião às vésperas de cantar para subir; e o Ano Novo, um bebezinho de chupeta na boca, meleca e remela nos olhos. A trilha sonora do encontro, é claro, era mesmo o ‘Adeus, Ano Velho’, a canção de Francisco Alves e David Nasser que termina desejando muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender.

A despeito de eventuais broncas, a virada do ano guarda a carga simbólica de que é a hora de despachar os perrengues do ancião carcomido, o ano que vai se empirulitar, e renovar as esperanças de que o ano bebê possa trazer, na festa esporrenta dos fogos, mais alegrias.

Em certa ocasião, sensibilizado por uns birinaites de responsa e sob a emoção do ano que se anunciava, escrevi meus votos de Boas Festas e Feliz Ano Novo em um cartão que distribuí entre os mais chegados. Reproduzo abaixo, estendidos aos leitores, aqueles meus votos mais sinceros, que continuam os mesmos.

Em 2015 desejo aos amigos a cerveja gelada, o fígado em ordem, o coração nos conformes, os amigos presentes, a bola na rede, a mão na roda, Pixinguinha na vitrola, Exu centroavante, Ogum de ronda, Xangô no apito, o camarão no prato, o moleque na escola, o samba no terreiro e o dia bonito.

O papo na esquina, o botequim aberto, a televisão desligada, o pau duro, a Maria mole, a pipa no ar, a rua sem carro, o trem no trilho, a barca no mar, a canoa no rio; o Rio. A casa de vila, a troça, a taça, a prosa, a sanfona, a folia, o dia, a água gelada, o Buraco Quente, Nelson Cavaquinho, Odé de frente e peixe assado. Mais feira, menos mercado.

A festa de Cosme, a festa na Penha, o traçado, o trabalho leve, a cantiga breve, o subúrbio livre, o livro. A paz, o pão, o pião, o rodopio, o batuque, o desvio, o truque sem trambique. O batuquejê, o acarajé e o tremelique.

A comida farta que anda sumida: pirão, mocotó, rabada, pururuca, dobradinha. Para quem preferir, boa salada. O prazer sem tempo e sem tristeza; o desejo de dizer, movido a birinaites, numa mesa do Adônis, do Brasil, de qualquer parte, com patriótica certeza: a minha pátria é a língua à milanesa.

Cachaça, vinho, manga, reza, bamba, Bimba, candonga, sunga, pinga. Toque de bola, vento, varanda, gol da virada. A criança brincando, o homem sorrindo, a mulher amada.
Feliz Ano Novo!

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