Viola: O instrumento de dez cordas típico da música caipira atrai novos adeptos

Instrumento protagoniza um resgate do repertório sertanejo de raiz

Por daniela.lima

Rio - Uma famosa canção do grupo vocal Boca Livre, dos anos 70, atesta que quem tem a viola para se acompanhar tem som de rio numa corda de metal, o mar num acorde final e tom de roupa quando seca no varal. “Nessa confusão que é a cidade grande, as pessoas buscam no som da viola caipira um pouco do astral do interior”, explica o violeiro Henrique Bonna, integrante do grupo carioca Família Bonna.

Grupo Cordas CariocasDivulgação


Na contramão do sertanejo universitário — o gênero que tomou o país com uma enxurrada de duplas e artistas já há alguns anos —, uma nova turma vem se voltando às raízes da música do interior no ritmo da viola caipira, ou viola de dez cordas.

“Há males que vêm para o bem. O sertanejo universitário acabou por chamar a atenção para a tradição desta música. Mas essa turma conhece bem isso. O Michel Teló fez até série no ‘Fantástico’ para mostrar que também conhece as raízes de sua música. Ele toca pra caramba, mas não se dedica ao som de raiz porque não deve dar muito retorno financeiro”, avalia Bonna.

Com o passar do tempo, a música caipira foi perdendo espaço para o que hoje chamamos de música sertaneja, com novos instrumentos incorporados e temas relacionados à vida urbana. Esse novo estilo foi incorporado à indústria cultural e hoje rende milhões.

Mas há um movimento de valorização e resgate do repertório caipira tradicional. Aqui no Rio tem até um curso para se aprender a tocar viola de dez cordas, na Elam (Escola Livre de Aprendizagem Musical), em Jacarepaguá, onde Bonna dá aulas do instrumento e onde formou-se em 2014 o grupo Caipirando. Nomes como Andrea Carneiro (que lançou o livro ‘Viola Instrumental Brasileira’, com partituras e CD encartado) e Fábio Neves, da banda Cordas Cariocas, além do recém-criado conjunto Mula Preta, também vêm ganhando repercussão na cidade.

“No Rio de Janeiro, cidade do samba, a música caipira ainda é muito pouco difundida, daí a vontade de levar essa música aos ouvidos dos cariocas, no formato dos tradicionais bailões caipiras, e trazendo um repertório dançante que inclui clássicos de nomes como Tião Carreiro ou Rolando Boldrin”, explica Gabriela Góes, responsável pelas dez cordas no Mula Preta.

Não só por aqui, mas Brasil afora jovens músicos têm se interessado cada vez mais pela viola caipira, e uma série de novos violeiros virtuoses despontam na cena musical brasileira, a exemplo da dupla mineira Lucas Reis & Thácio ou da mato-grossense Bruna Viola.

“Tenho consciência de que estou colaborando com essa cultura em meio à minha geração, servindo de referência para muitos jovens”, orgulha-se ela. “Em vários shows tenho tido o prazer de autografar violas, principalmente das mãos de meninas.”

A música caipira, ou “sertanejo raiz”, perdeu espaço, mas nunca deixou de existir. Duplas e artistas como Zé Mulato & Cassiano, Rolando Boldrin, Renato Teixeira e Almir Sater preservam o espírito desse gênero. “Tenho encontrado bons violeiros por aí, e é bom saber que tem mais meninas ponteando a viola, que é um instrumento muito feminino, e às vezes ela vira moda mesmo”, comenta Almir Sater.

VIOLÃO NÃO É VIOLA!
Há quem faça confusão e chame o violão de viola, mas são dois instrumentos diferentes. A viola caipira tem dez cordas, em vez das seis do violão, além das diversas afinações particulares.
“Logo que se aprende uns poucos acordes, já dá para tocar muitas músicas. Isso entusiasma a continuar se aperfeiçoando”, descreve Henrique Bonna.

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