Caixa ‘70 Raul Seixas’ mostra fase problemática e de desprestígio do cantor

'Ele estava mais interessado em fazer carreiras de cocaína', disse o produtor Marco Mazzola

Por O Dia

Rio - Entre 1977 e 1979, Raul Seixas (1945-1989) abusou das drogas e do álcool, retirou metade do pâncreas, patinou no desprestígio e foi às páginas policiais. O inferno astral do roqueiro, que completaria 70 anos em junho de 2015, paira sobre a recém-lançada caixa ‘70 Raul Seixas’, da Warner, com os três discos desse período mais seu último álbum, ‘A Panela do Diabo’ (1989, com Marcelo Nova).

'O Dia Em Que a Terra Parou’ (1977) emplacou ‘Maluco Beleza’ e a faixa-título, mas as vendagens não foram boas. Raul compunha com um parceiro novo (Claudio Roberto) e buscava largar a pecha de ‘guru’ ganha com Paulo Coelho.

Fase problemática do cantor é contada em caixa "70 Raul Seixas"Divulgação

“Quando o Raul saiu da Philips (hoje Universal), estava mal. O contratei para a Warner e todo mundo foi contra”, diz o produtor Marco Mazzola, que comprou um apartamento para Raul na época. “Vi que não podia fazer mais nada quando o levei para mostrar a casa nova e ele estava mais interessado em fazer carreiras de cocaína. O Raul era um cara careta, mas se deixou levar por essa coisa de ver disco voador. Ele confiou demais no Paulo Coelho. Eu falava para ele pôr o pé no chão.”

Mazzola se esmerou no LP, convidando o guitarrista americano de jazz Lee Ritenour para solar em ‘Maluco Beleza’ e Gilberto Gil para arranjar ‘Que Luz É Essa?’. “O Raul achava que Caetano Veloso e Gilberto Gil não gostavam dele. E hoje a gente vê Caetano falando bem dele, mas na época não era assim!”, lembra o produtor.

Kika Seixas, que viria a ser mulher de Raul, trabalhava no departamento de imprensa da Warner. “O Elvis Presley andava com a ‘máfia de Memphis’, uma rapaziada estranha. E Raul cismou que era como ele, e fazia o mesmo. Quem cuidava das contas dele, inclusive Imposto de Renda, era um motorista!”, espanta-se Kika.

‘Mata Virgem’ (1978), no qual retomava a parceria com Paulo Coelho, teve um quase-hit, ‘Judas’. “Por causa da retirada de parte do pâncreas, Raul precisou parar de beber. Isso o deixou deprimido e ele passou a faltar a compromissos”, relata Kika. “Um dia, precisei ligar para o Raul para chamá-lo para o estúdio, e a pessoa que atendeu, que morava com ele, disse que não o via há dias nem sabia se ia poder dar o recado”, recorda ela.

“Naquela época, a Warner foi para terceiro lugar nas paradas e eu comecei a ter outras funções lá dentro”, lembra Mazzola. “Me vi completamente sem forças para ajudar o Raul, um grande talento. Mas ele não queria ser ajudado.”

‘Por Quem Os Sinos Dobram’, último álbum da fase, saiu em 1979 e trazia Raul compondo ao lado de Oscar Rasmussen. É tido por fãs como seu álbum mais fraco. No lançamento, um dos seguranças de Raul, o argentino Hugo Amorrotu, foi morto no apartamento do cantor em Copacabana por traficantes. “Foi o ápice de uma fase de total desligamento do amor à vida”, lamenta Mazzola. Já ‘A Panela do Diabo’, do cantor com Marcelo Nova, saiu pouco antes da morte de Raul.

“Quando casei com Raul, meu pai disse: ‘Filha, onde há fumaça, há fogo’”, brinca Kika, lembrando que, ao fim do contrato, precisou ir com ele à então sede da gravadora, no Jardim Botânico, resgatar um pôster do disco ‘Mata Virgem’. “Lembro da gente andando com o pôster, quase em tamanho natural, e da decepção do Raul.”

Sua redescoberta pelos fãs se daria após ele ir para São Paulo, em 1980. “Ele falava que o público carioca só queria saber de andar de patins. E a metrópole o recebeu de braços abertos”, diz Kika, que lança em março de 2015 o DVD ‘O Baú do Raul’, gravado em agosto na Fundição Progresso. “Querem fazer um musical do Raul, mas acho melhor passar esse período em que os musicais estão em voga. E eu preferiria uma ópera-rock!”

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