Candeia, que completaria 80 anos em 2015, tem sua obra relançada

Músicas estão de volta em caixa de cinco CDs. Este ano sambista é enredo da Renascer de Jacarepaguá

Por O Dia

Rio - Uma das principais lembranças que o compositor e colunista do DIA Moacyr Luz tem de Antonio Candeia Filho, ou simplesmente Candeia (1935-1978), é da liderança política do sambista,que completaria 80 anos em 2015 e tem parte de sua obra relançada na caixa de CDs ‘Sou Mais o Samba’. E também vira enredo da escola Renascer de Jacarepaguá, no Carnaval deste ano (com ‘Candeia! Manifesto Ao Povo Em Forma de Arte!’, escrito por Moacyr, Teresa Cristina e Claudio Russo). 

Manifesto afro%3A Candeia na roda de samba%2C com megafoneDivulgação


“Candeia ficava sentado na cadeira de rodas, cantando com um megafone na mão. Parecia um manifestante”, brinca Moacyr. “Ele lançou ‘Dia de Graça’, que falava em ‘cantar samba na universidade’ e as pessoas riam. O Candeia colocava todo o inconformismo contra a discriminação racial nas suas músicas. E as pessoas cantavam, mesmo sem ter a dimensão do que significava aquilo.”

Para quem é do samba, 2015 chega com ares de “ano Candeia”. Autor de canções como ‘Preciso Me Encontrar’ (gravada por Cartola e Marisa Monte), ‘Samba da Antiga’ e vários clássicos, o portelense, ex-investigador da Polícia Civil (tornou-se paraplégico em 1965, após levar cinco tiros numa batida policial) ganha ainda ciclo de homenagens a partir de agosto, mês de seu nascimento, no Centro Cultural Quilombo. Presidido por sua filha Selma Candeia, ele descende da escola de samba Quilombo, que fundou em 1977. E valorizava o sambista “de raiz”, ligado à cultura afro-brasileira.

"Em novembro, vamos lembrar também sua data de morte, junto com o Dia de Zumbi”, conta Selma, recordando a cultura e a personalidade forte de seu pai. “Quando tinha reunião e ele falava, todo mundo ficava parado ouvindo. Ele tinha muito conhecimento. Até popularizou termos como ‘axé’, que é um agradecimento aos orixás”.

Lançada pelo selo Discobertas, do produtor Marcelo Froes, a caixa traz os três primeiros álbuns, ‘Candeia’ (1970), ‘Seguinte... Raiz’ (1971) e ‘Samba de Roda’ (1975). E mais dois CDs de raridades, um com compactos e outro com regravações. Entre elas, ‘A La Orilla Del Mar’, versão em espanhol de ‘O Mar Serenou’, que foi sucesso com Clara Nunes, feita pela jovemguardista Martinha. “Tinha me deparado com isso quando pesquisava a discografia da Jovem Guarda. A Martinha morou na Espanha e acredito que esse tenha sido o último single dela em espanhol. Não sei se fez sucesso”, conta Marcelo.


CANDEIA! MANIFESTO AO POVO EM FORMA DE ARTE

Autores: Claudio Russo, Teresa Cristina e Moacyr Luz. Intérpretes: Evandro Malandro e Diego Nicolau

Ô ô, tambor de Angola/ Batuque de Gêge, Nagô ô ô ô/ Vou chamar Zé Tamborzeiro pra versar/ Oxalá Dia de Graça vai chegar.

É jongo, é camafeu, é capoeira/ Olha o peixeiro na feira!/ Jurema no catimbó/ Antonio filho da flecha certier/ O seu grito a ecoar: okê arô odê maior.

Sereia, a Portela reunida vem cantar/ Clareia, o seu verso criou asas pra voar/ O mar serenou na areia/ Candeia, Candeia!

Não basta ter inspiração/ Pra cantar samba é preciso muito mais/ A rima suada pra ganhar o pão/ Lamento em louvor aos orixás/ Ioiô, vem bater samba de roda pra iaiá/ Que eu preciso nesse samba me encontrar/ Alegrar o meu viver/ Um rei, guardião de uma cultura popular/ Ouça agora a voz de toda a Renascer/ Renascer de Jacarepaguá.

Axé, Candeia, Axé!/ A luz do quilombo no chão do terreiro/ Axé! Irmão de fé/ Orgulho do sambista brasileiro.


Últimas de Diversão