Luiz Antonio Simas: Verão, piscina e caladril

Aviso de prima que a equação não é essa: é ele, o verão, que faz questão de demonstrar que me detesta

Por O Dia

Rio - Minha recordação mais feliz do verão envolve a inauguração de uma piscina Tone na casa da família, em Nova Iguaçu. A piscina era de responsa, grande pacas. Não me lembro exatamente do modelo, já que a Tone vinha nas versões Búzios, Ipanema, Guarujá, Paraty e Copacabana. Meu avô, emocionado com a aquisição, abriu até uma sidra de macieira Cereser para comemorar o nosso complexo aquático da Baixada; formado pela piscina, por uma churrasqueira imponente e por uma barraca de sol. 

Luiz Antonio Simas%3A Verão%2C piscina e caladrilDivulgação


No dia da inauguração houve, além dos discursos de praxe, uma queima de fogos para comemorar o evento e saudar o primeiro mergulho, que no caso foi dado pelo Cara, o vira-latas da família, que quebrou o protocolo quando ouviu os fogos, entrou em desespero e se atirou na piscina antes de todo mundo.

As piores recordações do verão são muitas: alergias, coceira por causa de queimaduras de sol, tentativas frustradas de virar rato de praia, ataques do meu avô por causa da conta de luz, sacanagens dos bronzeados em virtude da minha pele de branco azedo, vergonha de menino por causa do pinto duro explodindo dentro do calção de banho, o bronzeador de cenoura que quase me matou tostado... A lista é grande.

O fato é que não sou dos verões. A estação, com a sua profusão de cariocas fantasiados de cariocas (sim, há cariocas e baianos que gostam de se fantasiar do que eles acham que são os cariocas e baianos), não me escolheu. Basta observar as revistas de programação dos jornais que apresentam as 50 melhores dicas e lugares para exibir os corpos sarados nesta época do ano. Em qualquer um dos lugares sugeridos eu me sentiria como um esquimó em Bangu ou um banguense no Círculo Polar Ártico; absolutamente deslocado.

Dia desses um site perguntou qual era o cheiro típico do verão para algumas pessoas. Por alguma razão, eu fui um dos escolhidos para responder a enquete. Teve gente que falou do cheiro da maresia, do picolé de manga, do sal nos corpos morenos, do camarão frito na beira da praia e o escambau. Minha resposta foi sincera: o verão para mim tem cheiro de Caladril, a pomada gosmenta que me salvou inúmeras vezes de queimaduras de sol e mordidas de muriçocas e pernilongos.

O meu time, em se tratando das estações do ano, é o outono; época de calor decente, distante das temperaturas de alto forno de siderúrgica, e do céu carioca mais bonito que há. E antes que alguém diga que eu não gosto do verão, aviso de prima que a equação não é essa: é ele, o verão, que faz questão de demonstrar que me detesta.

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