Por daniela.lima
João Pimentel%3A Uma ponte lá para o longeDivulgação

Rio - A primeira vez que conversei com o Luiz Carlos Da Vila foi em um aniversário da Sérvula, dona do restaurante Sobrenatural, em Santa Teresa, que, sabe-se lá por quê, resolveu festejar no Mercado do Produtor da Barra. Era uma roda de samba que demorava a começar e, claro, eu estava na turma que foi procurar um botequim vagabundo, daqueles que, por sinal, não existem na Barra da Tijuca. Luiz Carlos ainda usava uma peruca, contrariando os conselhos de amigos, que preferiam ver o mestre com sua careca brilhante. Brilhante, aliás, como tudo o que saía de sua cabeça iluminada. 

Não sei como nos tornamos mais próximos, mas adorava comungar cada pedacinho da madrugada ao seu lado, cada gota de sereno, cada nota musical, cada tirada esperta, cada abraço do mestre. Não apenas eu, mas toda a turma do samba tem uma história bonita, uma lembrança comovente do gênio Luiz Carlos.
Gênio mesmo. O sambista da Vila da Penha — sempre lembrado por ‘Kizomba, A Festa da Raça’, que deu o primeiro título para a Unidos de Vila Isabel, em 1988 — pode ser incluído na prateleira de cima da música brasileira. Luiz Carlos é autor de sambas antológicos, em parcerias ou não. Craque nas melodias, poeta inspirado, criador de imagens que fazem suspirar. “Por te amar/ Eu pintei um azul do céu se admirar”, cantou em ‘Além da Razão’, com Sombra e Sombrinha, com quem fez ainda a bela ‘Oitava Cor’.

O Cacique, berço de muitos e onde ele se tornou mais conhecido, virou seu ‘Doce Refúgio’: “Sim, é o Cacique de Ramos/ Planta onde em todos os ramos cantam os passarinhos nas manhãs”. E assim ele foi colorindo a vida, enchendo de poesia seus caminhos, alegrando as pessoas.

Certa vez, fui assistir a um show de Luiz Carlos da Vila e Moacyr Luz, seu parceiro em sambas como ‘Benza Deus’, no Largo das Neves, em Santa Teresa. Era um palco montado pela Prefeitura, com várias atrações. Cheguei direto da praia com umas duas horas de atraso. A dupla e mais o percussionista Beto Cazes já tinham tomado umas e outras, e eu também, quando surgiu o convite do Beto:

— Você quer tocar um tamborim?
— Claro — respondi sem pestanejar.
— Oba — exclamou Luiz Carlos. — Janjão na percussão.

Eu, que de percussionista não tenho nada, mas de bobo também não, fiquei na cozinha tocando baixinho, até que o Beto me passou o pandeiro e disse: “Toca aí”, já pegando outro instrumento. O problema é que o pandeiro dele é que nem o violão do Nelson Cavaquinho, só ele sabe tocar. Em vez de ‘tum’, saiu um ‘pof’. Parecia pegadinha. Mas rapidamente ele reassumiu seu posto e me deixou ali, na função de tamborinista.

Anos depois, encontrei Luiz Carlos da Vila em Lumiar. Ele iria tocar no bar de um amigo, mas havia apenas um violonista local, creio que o Jorginho. Ao me ver, relembrando talvez nossa primeira experiência de palco, perguntou se eu não tinha um tamborim para acompanhá-lo. Pior, meu amigo Rodrigo, outro ritmista de ocasião, tinha ainda um pandeiro e um tantã na mala do carro. E assim viramos a noite, nos revezando nas percussões ao lado de Luiz Carlos. E ele não reclamou, prova maior de sua magnanimidade.

O mestre era generoso com as novas gerações, aliás, fazia parte delas como alma atemporal que era. Via beleza no novo. No disco que fez em homenagem a Candeia, em 1998, no final da faixa ‘Lua’, ele trava um diálogo curioso com Zé Luiz do Império:

— Aí, Zé, que beleza de samba.
— Antigamente era assim — responde o imperiano.
— Antigamente só, não, hoje em dia também. A beleza está aí para todo mundo ver.
Essas e outras histórias me vieram à lembrança ao ouvir o samba da Viradouro deste ano, uma fusão de dois de seus sambas antológicos, estes feitos sem parceiro algum: ‘Por Um Dia de Graça’ e ‘Nas Veias do Brasil’. É óbvio que é o melhor do ano.

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