Bia Willcox: Quando a montanha vai até Maomé

Falar no WhatsApp é quase compulsão, como tirá-lo das aulas para não dispersar?

Por O Dia

Rio - Drummond uma vez disse que perder tempo em aprender coisas que não interessam nos priva de descobrir coisas interessantes. Apesar dessa ideia fazer todo o sentido pra mim, isso me remete a uma das questões mais difíceis do planeta: educação formal hoje, com tantas coisas interessantes fora da sala de aula ou pela janela dos smartphones dos alunos.

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Apesar de respirar educação e da sala de aula ser meu habitat natural, hoje, com as redes sociais e messengers da vida, me sinto uma inexperiente. Talvez pelo fato de não estar mais dando aulas — a vida do business me deixou pedagogicamente medrosa. Ou porque eu me sinta impotente diante das rotinas dos alunos.

Volto ao Drummond. Com certeza checar as fotos do Instagram e criar hashtags é melhor que aprender logaritmos.Falar no WhatsApp é quase compulsão, como tirá-lo das aulas para não dispersar? Não sou hipócrita — todos nós o usamos o dia todo com intervalos, mas não tão longos quanto um turno na escola. Proíbe-se o uso de celular, então? E o controle ‘Onde você tá? Já chegou? Volta que horas?’ exercido pelos pais?

Não vejo uma solução cartesiana que não envolva repressão. E essa é bom evitar, afinal, trata-se de educação. Vejo uma equação difícil em que a escola tem que ensinar, acompanhar o mundo atual e não perder de vista a felicidade do aluno na escola. Nessa inequação, priorizo o conteúdo e não a forma. Acredito na máxima ‘Se Maomé (!) não vai à montanha, a montanha vai a Maomé.’ Se é difícil envolver os alunos nas aulas e em conteúdos necessários no formato tradicional, levemos o ensino para dentro dos smartphones que os encantam. E assim tomei coragem.

Treinar vocabulário? quiz no WhatsApp; desenvolver compreensão de textos? memes e posts no Facebook; treinar os ouvidos? séries populares na internet; informação e cultura? blogs e portais online. Isso tudo onde? Em seus celulares.

Os resultados vêm e os alunos faltam cada vez menos aulas — sinal de satisfação. Se antes já não tínhamos que dar peixe e sim ensinar a pescar, hoje, na era Google, WhatsApp e Facebook, a gente tem mesmo é que ensinar a fazer a vara de pescar, pois pescar mesmo, os adultos de amanhã já aprendem sozinhos.

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