João Pimentel: Tira as flechas do peito do meu padroeiro

'Brasil, tira as flechas do peito do meu padroeiro/ Que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar'

Por O Dia

'Brasil%2C tira as flechas do peito do meu padroeiro/ Que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar'Agência O Dia

Rio - O verão no Rio não está mole. Um calor do cão. “O sol nunca mais vai se pôr”, diria Chico Buarque. Mas de todos os males do calor: a preguiça, a desidratação, a falta de água, a praia lotada, a cidade caótica, o que mais me incomoda é o miolo mole. Vou repetir para não pensarem que estão lendo errado: o miolo mole é o pior dos problemas desse infernal superaquecimento carioca.

Só isso, a transformação em pudim da massa encefálica, pode explicar dois posts que viralizaram — aliás que palavrinha — na internet na semana passada. Prefiro acreditar neste fenômeno que simplesmente no preconceito covarde, mesquinho, obtuso, desinformado de duas colunistas, articulistas, ou o que quer que façam as duas senhoras das quais prefiro não citar o nome.

Uma delas, incomodada com os assaltos, arrastões ou simplesmente com a presença de um público que não aparece nas novelas de Manoel Carlos, resolve dar conselhos para os “especialistas” em segurança. “Sugerir não ofende”, disse em seu blog. Ofendeu sim, a mim, aos cariocas, à liberdade de ir e vir.
O primeiro palpite infeliz era para “diminuir drasticamente a circulação das linhas de ônibus e de Metrô no fluxo Zona Norte — Zona Sul” em dias de grande concentração. O segundo, “caso essa providência não alcance resultado”, “cobrar entradas nas praias de Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon”. Nossa! Foi muito sol na cabeça. Ou não!

Diz a tal “colunista”, que “isso é uma normalidade no exterior”. E o Kiko? Já outra senhora, que deve ter ficado horas no secador de cabelo de algum salão de beleza sob esse calor de 50 graus à sombra, fez um texto mais direto, sem palpites, sobre o que acha do pobre. Entre outras pérolas disse que “todo pobre tem problema de pressão”. Que “pobre desmaia em velório, em churrascos, não”. E mais, que “pobre quer ter uma doença” e que quando tira sangue fica tonto e evita trabalhar.

A que ponto chegamos? O pior é saber que, apesar de muitas reações contrárias, outras pessoas pensam assim. Na coluna social cabe o churrasquinho na laje do Morro da Providência, o funk e o charme em Madureira, o ensaio da Vila Isabel com a “madrinha” Sabrina Sato, a cerveja do Cachambeer, mas não o pobre da Zona Norte que invade a Zona Sul para desespero da madame. Talvez na companhia apropriada fosse mais palatável. Mas não, eles invadiram a praia. Não a nossa ou a deles, a praia que sempre foi de todos.

Mas madame não gosta que ninguém sambe. Então vamos acabar com o samba. O samba de Paulo da Portela, que cantou a ‘Cidade Mulher’; de Noel Rosa, o Poeta da Vila, que bem descreveu o Rio: “Cidade notável, inimitável/ Maior e mais bela que outra qualquer”. Podemos também acabar com samba de João Nogueira, fruto dos Jardins do Méier, e de tantos outros. Podemos lembrar também do Romário da Vila da Penha; do Zico, nosso Galinho de Quintino; do Zeca Pagodinho de Irajá e Del Castilho.

A cidade chega aos seus festejados 450 anos, no próximo 1º de março, mais partida e menos repartida que nunca. Dividida pelo preconceito, pelo atraso de pessoas que acham que o parâmetro é a Europa ou os Estados Unidos. Nossos problemas devem ser discutidos com seriedade, mas talvez com a criatividade e a irreverência de que tanto nos orgulhamos.

Hoje, dia do nosso padroeiro, lembro ‘Saudades da Guanabara’, de três cariocas suburbanos fantásticos: Aldir Blanc, do Estácio, criado na Tijuca; Paulo Cesar Pinheiro, de São Cristovão, e Moacyr Luz, de Jacarepaguá e todos os cantos do Rio.

“Brasil, tira as flechas do peito do meu padroeiro/ Que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar”.

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