Por daniela.lima

Rio - Você sabia que ‘Pelo Telefone’ não foi o primeiro samba gravado, como reza a lenda? E que o ritmo que embala o Carnaval é muito mais uma herança indígena do que africana? E a autoria da marcha ‘Cidade Maravilhosa’, hino oficial do Rio, não seria de André Filho, mas de Noel Rosa?! “Não há provas, é uma fofoca, mas a fonte da informação é o próprio irmão do Noel, o psiquiatra Helio Rosa. A segunda parte, da letra ‘Berço dos sambas e de lindas canções’, é o estilo do Noel compor. Ele dava e vendia muitas composições”, polemiza o produtor musical João Carino. 

Carmem Miranda e Bando da LuaDivulgação


Curiosidades como essas são detalhadas no livro ‘Geografia da Música Carioca’ (Ed. Muriqui Livros, R$ 34, 314 págs.), dele e de Diogo Cunha, que terá lançamento na livraria Travessa de Botafogo em 5 de fevereiro. “O livro é fartamente ilustrado, com imagens raras, algumas até inéditas, de nomes que fizeram a história da música na cidade, de Pixinguinha ao DJ Marlboro”, ressalta Carino. “A pesquisa é mérito do Diogo, que é pesquisador de fotos. Ele é da caverna, daqueles caras que você não consegue falar no telefone, está sempre dentro do arquivo, da biblioteca”.

O livro começa ao som dos índios dançando e batendo tambor (“Levanto a teoria de que o samba não é originário da África, mas dos Tupinambás, encontrei isso em uns livros do fim do século 16”, conta Carino), passa por maxixes, marchinhas, bossa nova, rock e desce até o rebolado sensual do baile funk.

Apresentador de um programa de choro na rádio MEC e produtor de CDs de artistas como Chico Buarque, Ivan Lins e Beth Carvalho, o autor confessa que não foi seu prato predileto escrever o capítulo sobre o funk carioca, usualmente alvo de preconceito dos ditos “puristas da música”.

“Mas seria burrice se ignorasse o assunto, e até mudei meu ponto de vista. É um fenômeno de massa muito importante”, relativiza Carino.

O livro, portanto, sugere uma viagem pelos gêneros que fizeram história na cidade, tenham eles certidão de nascimento lavrada ou não nos cartórios de São Sebastião do Rio de Janeiro. “Na Tijuca teve um movimento musical bem carioca, com Roberto e Erasmo Carlos e que deu na roqueira Jovem Guarda”, destaca o autor.

‘Geografia da Música Carioca’ traz ainda histórias de canções, seus principais compositores e intérpretes, lendas e curiosidades. E a tal polêmica sobre o primeiro samba gravado? “A mesma gravadora Odeon que registrou ‘Pelo Telefone’ em 1916, já havia registrado uma série de discos, entre 1912 e 1914, com músicas identificadas como sambas. Os registros não param por aí: há gravações lançadas anteriormente a 1916 tais como ‘Samba do Urubu’, com o Grupo do Louro, ‘Samba do Pessoal Descarado’, com o Grupo dos Descarados”, lista. “Não se pode concluir qual foi o primeiro samba gravado, mas podemos afirmar que, com sucesso de ‘Pelo Telefone’, o samba recebeu uma certidão de nascimento”.

Há ainda dúvidas sobre a verdadeira autoria da emblemática canção, inspirada na roleta no Largo da Carioca e na ordem pelo telefone dada ao chefe de polícia. Foi composta em meio a uma roda de samba em uma festa na Praça Onze. Na ocasião, estavam presentes Sinhô, João da Baiana, Pixinguinha, o jornalista Mauro de Almeida, entre outros. O registro foi feito na Biblioteca Nacional por Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, e Mauro de Almeida. “A gravação em disco seria feita em 1917, pelo cantor Manuel Pedro dos Santos, o Baiano, considerado o Rei da Voz no período. Posteriormente, Donga e Mauro declararam que não eram necessariamente os autores do antológico samba. Eles confessaram que pegaram o passarinho no ar, e deram a ele casa, comida e roupa lavada”.

A música popular brasileira nascida no Rio de Janeiro é fruto de uma mistura de raças, costumes e origens. “Acho que por aqui sempre vão continuar surgindo coisas novas nessa área”, acredita João Carino. “A cidade tem muito essa vocação, o Rio é uma cidade muito sortuda, lugar de uma incrível e coincidente união de tradições musicais nacionais e de fora do Brasil”.

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