Por tabata.uchoa

Tiradentes - Engana-se quem acha que Saci, Iara e Lobisomem são apenas personagens infantis. Pelo menos é o que propõe o filme de terror ‘As Fábulas Negras’, exibido na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que vai até sábado. O longa-metragem insere o folclore brasileiro em cenários de horror, além de reunir representantes da escassa produção do gênero no país, como José Mojica Marins — criador do lendário Zé do Caixão.

“Ouvi depoimentos de pessoas mais idosas dizendo que o Saci era um ser terrível. Estou tentando resgatar um pouco disso”, explica o idealizador do projeto, Rodrigo Aragão, que dirige uma das histórias que compõem o filme. “A gente tem uma visão muito infantil do folclore brasileiro. Talvez isso aconteça muito pelo Monteiro Lobato, que retratou essas lendas para crianças”, emenda ele.

Uma das cenas do longa%2C que tem cinco históriasDivulgação

Com um roteiro dividido em cinco episódios, o filme, inicialmente, seria narrado por Mojica. Mas houve uma mudança de planos quando o pai do terror nacional descobriu que o protagonista de um dos capítulos era o Saci. “Ele falou: ‘O Saci é muuuito legaaaal. Sempre quis fazer esse personagem, porque é coisa noooossa’”, conta Aragão, imitando a voz macabra do cineasta, que não pôde comparecer ao festival por ordens médicas.

A dupla se juntou a Joel Caetano e Petter Baiestorf, que comandaram as lendas da Loira do Banheiro e do Lobisomem, respectivamente. Enquanto isso, Aragão ficou responsável pela Iara e pelo Monstro do Esgoto, único personagem criado especialmente para o filme.

“Esse conto veio de um real vazamento de esgoto na porta da minha casa. Foi uma liberdade poética movida pelo profundo ódio de você ter um vazamento ali durante dois anos”, lembra o cineasta, que mora em Guarapari, no Espírito Santo. “Alguns dos diálogos mais absurdos desse episódio existiram. Inclusive a do fiscal dizendo: ‘Olha, o vazamento é na porta da sua casa, então você será multado se não resolver.’ Todas essas coisas me motivaram a quebrar a barreira do folclore e criar a minha própria lenda.”

O casamento entre essas lendas e experiências pessoais dos diretores também motivaram toda a estrutura de ‘As Fábulas Negras’. “O filme é um pouco autobiográfico. Cresci em uma aldeia de pescadores. Brincávamos na mata. Por isso a narração do Mojica foi substituída pela de quatro crianças. A casa da Iara, a mulher que largou o marido para casar com o Diabo, realmente existiu”, diz o idealizador do projeto.

Já para Baisestorf, o que mais o motivou foi poder “nacionalizar o terror”. “Estamos sempre vendo o gênero com bicho gringo. Falta no nosso cinema a presença desses personagens dos quais crescemos ouvindo falar”, defende ele. Ele comemorou a boa reação do público, que lotou a sessão de estreia, iniciada, não por acaso, à meia-noite e meia.

A única coisa que o time não comemora é a dificuldade de produção e de distribuição dos filmes de terror no país. Inscrito em editais de leis de incentivo, o longa não foi contemplado por nenhum deles. Quando questionado sobre o lançamento no circuito comercial brasileiro, Aragão responde: “Um dos problemas que enfrentamos aqui é que existe uma mentalidade da máquina de que o terror é um subgênero. Uma segunda muralha é a distribuição brasileira, que é uma piada. Meus filmes já foram exibidos no Japão, na Alemanha, no México, na Holanda... Mas não conseguimos distribuição por aqui.”

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