Por tabata.uchoa

Rio - Mário Filho, para quem não liga a fama à pessoa, foi um dos maiores jornalistas e empreendedores da imprensa brasileira, o maior incentivador de todos os esportes que já tivemos, especialmente do futebol (dá nome ao Maracanã!), e um homem cercado de histórias interessantes — das que viveu, inventou, enfeitou ou patrocinou. Além de ter sido irmão de Nelson e de Roberto Rodrigues, criou o ‘Jornal dos Sports’, o JS, e legou ao Rio e ao jornalismo carioca o filho Mário Júlio, que tocou o jornal após sua morte, e o filho do filho, Mário Neto, o Mariozinho, caneta afiada, tamborim de ouro e meu amigo.

Neto único%2C Mariozinho estudou em bons colégios. Em um deles%2C cismou de jogar no time de basqueteAgência O Dia

Boa parte das histórias de Mário Filho está nos inúmeros livros de crônicas que ele deixou ou que têm sido publicados postumamente. Essa não foi escrita, mas me foi contada, e passo adiante:

Neto único e xodó do vô, Mariozinho estudou em bons colégios. Em um deles, o badalado Anglo Americano, o moleque que nunca teve altura nem para gandula cismou de jogar no time de basquete. Foi aceito, claro, mas para brilhar apenas no banco de reservas. Nessa condição, disputou no comecinho dos anos 1960 o Campeonato Carioca de Jogos Infantis, na categoria 11 a 13 anos. O torneio, como todas as modalidades esportivas amadoras do Rio, das peladas de várzea aos campeonatos de purrinha, tinha apoio, patrocínio e cobertura do ‘Jornal dos Sports’.

Às vésperas da grande final, quando o Anglo Americano decidiria o título com o também tradicional Instituto Petersen, com meu amigo Mário Neto devidamente escalado para o banco de reservas, o todo­poderoso patrocinador do certame convocou o técnico da equipe à redação do JS, sala do diretor.
E foi direto ao ponto:

— Quero o meu neto na quadra!

— Impossível, doutor Mário!

— Impossível é boi voar!

— O Mariozinho não joga nada, é banco.

— Sei disso. Mas ponha o garoto alguns minutos, só o tempo do fotógrafo do jornal registrar ele em ação.
Vai discutir com o homem? Claro que não. Finalzinho do jogo, Anglo vencendo, vitória assegurada, o técnico botou Mário Neto em quadra. Não fez nada nos dois minutos que ali permaneceu, mas deu tempo do fotógrafo pegar o meu amigo num lance sem importância, porém fotogênico.

Dia seguinte, o JS estampou a foto do neto do homem em quadra, ocupando meia página de capa, com a seguinte manchete:

ANGLO CAMPEÃO! MÁRIO NETO FOI FUNDAMENTAL!!!

Bom caráter, Mariozinho argumentou com o avô:

— Que exagero, vovô. Pega mal pro jornal. Eu sou reserva, não joguei nada...

E o velho homem de imprensa:

— Esse problema não é seu nem do jornal, meu ídolo! É da besta do treinador, que não sabe reconhecer o talento de um verdadeiro craque!

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