Ator Nelson Xavier vive doente terminal em filme

‘A experiência de encarar a finitude é uma coisa que eu já tinha em mim’, diz o ator

Por O Dia

Tiradentes, Minas Gerais - A primeira cena de ‘A Despedida’ é conduzida pelas dificuldades físicas de um idoso já no fim da vida. Na pele do protagonista, Nelson Xavier senta com dificuldade na cama, retira a própria fralda e se prepara para ter sua última noite com a amante 55 anos mais jovem (Juliana Paes). Exibido na 18ª Mostra de Cinema Tiradentes, o filme é inspirado na história real do avô do diretor Marcelo Galvão, que decidiu homenageá-lo através do cinema. 

Nelson Xavier e Juliana Paes estão amantes em ‘A Despedida’Divulgação


“Ele (avô) tinha 92 anos quando morreu e ela (amante), 37. Eles estavam juntos desde os 17 anos dela. Todo mundo sabia do caso: minha avó, meu pai, minha mãe... Era uma relação meio que aberta”, conta Galvão. Ao viver o papel, Nelson acabou descobrindo algumas semelhanças com o personagem Almirante.
“Uma coisa familiar é que sou casado há 25 anos com uma mulher bem mais jovem”, diz o ator, de 73, apontando para Via Negromonte, 19 anos mais jovem. “Há algum tempo, tenho câncer. Então, a experiência de encarar a finitude é uma coisa que eu já tinha em mim. Acho que isso deve ter contribuído também. A decadência física te ensina a entender mais a vida”, emenda o ator, que luta contra um câncer na próstata.

Na época em que o filme foi rodado, há dois anos, Nelson passava por um dos piores momentos do tratamento contra a doença. E Via lembra que, mesmo submetido à maquiagem, o marido tinha a aparência física que vemos na tela. “Sim, ele estava realmente daquela forma decadente. Estava passando por um uma intensa quimioterapia na época. Estava inchado, manchado e cheio de chagas. Hoje, o Nelson parece pelo menos cinco anos mais jovem do que estava naquele processo”, recorda.

Assim como foi com o avô de Galvão, aos 92 anos, o Almirante da ficção passa um período debilitado e dependendo dos cuidados da família para sair da cama. Um dia, se esforça para se arrumar sozinho e diz que quer tomar um café na rua, sozinho. Na verdade, os planos dele vão além do café na birosca perto de casa. Sua principal intenção é se despedir da amante, que não vê há algum tempo. “Depois de um mês, o meu avô morreu”, revela o cineasta.

“Me preocupei mais em como lidar com a parte física do personagem, como convencer que eu estava em um estado terminal. O Marcelo me apresentou um médico amigo dele, que é especialista nisso. Ele me deu uma aula sobre o comportamento físico de uma pessoa como o Almirante”, diz Nelson, que incorporou cada gesto na frente das câmeras.

Também preocupada em passar o máximo de verdade como a amante, Juliana Paes fez questão de não usar maquiagem em cena. “Ela pesquisou bastante: achou uma mulher de 25 anos casada com um senhor de 80 e poucos. Essa mulher era superapaixonada e ciumenta. Chegava até a rasgar as coisas do marido quando ele se atrasava para chegar em casa”, conta Galvão. “Minha maior preocupação era que ela não fosse uma Gabriela (personagem de Jorge Amado já vivido pela atriz). Mas Juliana entrou mesmo no papel”, garante. 

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