Por karilayn.areias

Rio - O quinto mandamento do Cristianismo não deixa nenhuma margem para discussões: não matarás. A frase é direta, sintética e objetiva. Em tese, é uma ordem de fácil compreensão. No entanto, até onde se sabe, ela não foi escrita em tempos de guerra, nem sob o fogo cerrado do inimigo. Do contrário, teria que ser um pouco relativizada. Algo que o personagem vivido por Shia LaBeouf em ‘Corações de Ferro’ — novo filme do diretor David Ayer, que chegou ao circuito nacional na última quinta-feira — aprovaria sem pensar duas vezes. Na pele do soldado Boyd ‘Bíblia’ Swan, ele interpreta um homem de fé que, devido às circunstâncias nas quais se encontra, é obrigado a matar, uma vez que faz parte da equipe responsável pela operação de um tanque Sherman durante os últimos dias da Segunda Guerra Mundial, quando os aliados estão prestes a tomar Berlim.

O Sherman é o veículo usado pelos soldados norte-americanos no front para impedir o avanço de um destacamento da SS de Adolf HitlerDivulgação

“Ele é o artilheiro e também o segundo em comando dentro do tanque. É responsável por operar o sistema da arma principal, um canhão 76 milímetros de alta velocidade. O cara é um assassino frio como pedra, mas ao mesmo tempo também é uma pessoa de fé. Acho interessante explorar como um homem que lê as escrituras e tem fé — um cristão — concilia tudo isso com o fato de estar em combate.”, diz LaBeouf, explicando o principal motivo que o atraiu ao papel. “Convivi com veteranos de guerra que me ensinaram a diferença entre matar e assassinar.”

Passado nos momentos finais do conflito, o longa mostra a tentativa dos operadores do tanque de impedir o avanço de um destacamento da SS, a unidade paramilitar de elite nazista. De todos os detalhes da produção, um dos que mais chamam a atenção é a crueza com a qual os aspectos mais violentos do confronto são mostrados na tela. Em ‘Corações de Ferro’ há pouco espaço para sutilezas ou suavizações. Pelo contrário: as cenas de combate entre os tanques são bastante agressivas.

“O filme é honesto e o David (Ayer, diretor) me disse desde o início que iríamos mergulhar fundo no realismo. Ele falou que a experiência iria me mudar, que eu nunca vou ter trabalhado mais ou dado mais, que ele iria nos desafiar e que estaríamos entrando em uma experiência muito intensa e brutal. Ele gosta de levar as coisas até o limite porque é nele que reside a verdade, e eu queria ser parte desse processo”, explica o ator, que passou três meses em treinamento na Guarda Nacional e no Exército para se familiarizar com a rotina militar.

Guerra é um tema bem conhecido por Ayer. Ele — que escreveu o roteiro de ‘Dia de Treinamento’, obra que garantiu um Oscar de melhor ator a Denzel Washington, e dirigiu o aclamado ‘Marcados para Morrer’ — foi submarinista por dois anos antes de abandonar a vida nos quartéis para se dedicar ao cinema. “Eu dormia na sala de torpedos, em um rack de armas e ao lado de um míssil”, relembra o diretor. “Sabia que queria fazer algo relacionado à Segunda Guerra Mundial e percebi que ninguém tinha feito um filme sobre tanques, sobre a experiência blindada durante aquele confronto”, afirma Ayer.

Partes fundamentais da trama estão baseadas no desempenho de Brad Pitt como o sargento Don ‘Wardaddy’ Collier, líder da equipe. E, segundo o diretor, qualquer preocupação que ele poderia ter em trabalhar com um dos principais puxadores de bilheteria de Hollywood desapareceu no momento em que ambos chegaram ao set.

“Brad é humilde e não vem com toda aquela bagagem de astro de cinema. Ele não chega com uma comitiva. Pelo contrário: vai ficar na lama e comer o sanduíche frio com você. É um homem inteligente, me desafiava a fazer o meu melhor trabalho e eu também o desafiava a dar o máximo”, finaliza o diretor.

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