João Pimentel: Me segura que se não eu caio

Mas sempre, na hora do primeiro acorde, eu já estava lá. Madrugando no Bola, emendando no Carioca da Gema

Por O Dia

João Pimentel%3A Me segura que se não eu caioDivulgação

Rio - ‘No Carnaval não vou querer me fantasiar/ Não vou querer me vestir de rei/ Não quero mais colorir a dor/ E se alguém quiser me aplaudir / Vai ter que ser assim como eu sou/ Não quer dizer que não vou nem brincar/ Só não quero enganar o meu coração”.

Sempre fiquei intrigado com este samba do Elton Medeiros, ‘Sem Ilusão’, que falava do desencanto de um sambista com o Carnaval. Este Carnaval do desiludido Elton era o das escolas de samba, e, já nos anos 70, ele se uniu a um grupo de artistas liderado por Candeia para dar vida ao Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo. Deu-se início a uma luta, que se mostraria inglória, contra a mercantilização, a globalização, a pasteurização e outros ãos e senões que transformaram as escolas, os desfiles, o Carnaval e os sambistas.

Não que eu não conseguisse entender os motivos que os levaram a sair de suas escolas, de se sentirem impotentes diante das transformações causadas por interesses diversos. Eu não conseguia entender mesmo era o “não vou querer me fantasiar”, o “não quero mais me vestir de rei”. Sei que a fantasia e a realeza, dentro da festa momesca, têm outros sentidos, mas nunca me imaginei, desde meus tempos imemoriais, não ser algum herói ou outro tipo qualquer dentro da folia.

Depois fui ser palhaço, marciano, Maomé, Maradona, mosquito da dengue, bailarina e outras bizarrices mais na folia. Cantei sambas lindos de Lenine, Noca da Portela, Mario Lago Filho, Lefê Almeida, Nick Zarvos, Macarrão e outros compositores geniais de blocos, bares e esquinas. Aprendi com eles a fazer meus próprios sambas, fiz parceiros, ganhei e perdi, briguei e fui feliz.

Mas há alguns poucos Carnavais passei a me sentir preguiçoso. A pensar duas vezes antes de sair de casa para um bloco. Meu baú gigante de fantasias — do tempo em que não havia concursos, superproduções, paus de selfies, Carnaval de Facebook — ali, empoeirado. Mas sempre, na hora do primeiro acorde, eu já estava lá. Madrugando no Bola, emendando no Carioca da Gema, trocando de fantasia para o banho do Barbas, simpatizando em Ipanema, escravizado na Praça Mauá.

Outro dia, conversando com uma amiga, cheguei à conclusão que não envelheci, que o menino que corria atrás de qualquer bloco, que ficava no salão até a bandinha entoar a ‘Cidade Maravilhosa’, e que ia para a casa triste porque ainda faltava um ano para o outro Carnaval, ainda vive. E canta e dança e se emociona. E mais, que ele, o menino, viveu os grandes momentos de um Carnaval de rua amador, espontâneo, sem governo, sem corda e anárquico.

Quem me conhece sabe que não vivo o passado, assim como Paulinho da Viola, meu tempo é hoje. Assim como o meu ídolo, também procuro minhas referências, as fantasias do meu Carnaval, no presente. E o presente já tirou a poeira do meu baú para me levar mais uma vez para as ruas em busca de um Carnaval sem violência, com música de qualidade, com respeito a quem não é da folia, com o rir-se sem fim que faz de nós diferentes. “Me segura que senão eu caio”!!!!

Paz, amor, juízo, pouca ressaca e Evoé!!!

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