Ricardo Cota: Berlim aplaude 'Que Horas Ela Volta?', com Regina Casé

Anna Muylaert afirmou que seu filme abordava 'um dos mais graves problemas do Brasil: a educação'

Por O Dia

Regina Casé é uma doméstica e Michel Joelsas%2C filho dos patrõesDivulgação

Berlim - Exibido na última terça-feira no complexo de cinema Zoo Palast, no coração da capital alemã, ‘Que Horas Ela Volta?’, de Anna Muylaert, deu mais um passo decisivo para a sua consagração internacional. O público recebeu o filme com aplausos calorosos, que confirmaram o recente êxito no Festival de Cinema de Sundance, nos Estados Unidos, de onde saiu com o prêmio de Melhor Interpretação Feminina, dividido entre Regina Casé e Camila Márdila. 

‘Que Horas Ela Volta?’ conquista pelo alto poder de comunicação, mérito em grande parte de um roteiro enxuto, escrito em conjunto por Anna e Casé, que envolve o espectador a cada novo passo da ótima trama de observação social.

Regina Casé é Val, uma doméstica que trabalha há quase duas décadas com uma família nada funcional de alta classe média de São Paulo. É ela quem cuida dos horários, roupa, mesa e cama da estilista Bárbara (Karine Telles), do mimado Fabinho (Michel Joelsas) e do alienado e distante Carlos (Lourenço Mutarelli).

A rotina familiar muda com a chegada do Nordeste de Jéssica, filha de Val, que sempre viveu longe da mãe, num convívio de visitas intermitentes. Com a benevolência da patroa, Val consegue que a filha permaneça alguns dias dividindo seu pequeno quarto na mansão paulista. O que ela não conta é com a personalidade forte da filha, candidata ao vestibular, precocemente amadurecida e inconformada com a subserviência materna. Será Jéssica quem irá desafiar o conformismo da mãe e, com seu jeito destemido, desestabilizar a frágil relação familiar dos patrões, trazendo à tona seus aspectos mais sórdidos.

Convidada ao palco antes do início da sessão no Zoo Palast, Anna Muylaert afirmou que seu filme abordava “um dos mais graves problemas do Brasil: a educação”. Na verdade, o filme vai bem além disso. ‘Que Horas Ela Volta?’ desenvolve uma profunda crítica social dosando os melhores elementos do cinema de entretenimento, como humor e drama. A hipocrisia que caracteriza as relações entre empregados e patrões é desvendada nos seus traços mais sutis, e nem por isso menos perversos.

Em interpretação memorável, Regina Casé encarna a típica empregada que se agrega à família usando o afeto, muitas vezes sincero, como instrumento de sobrevivência no emprego. É ela que afaga o perdidão Fabinho, numa estranha proximidade típica da sociedade brasileira, tornando-se assim sua verdadeira mãe. Também cabe ao personagem a função de, à sua maneira, rever os conceitos cristalizados a partir da personalidade firme da filha. E é dessa troca de aprendizados que Val, a empregada semianalfabeta e conscientemente servil, irá tirar suas próprias conclusões. Aplausos merecidos.

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