Influência africana na moda brasileira é contada em livro

Designer Julia Vidal mostra importância do negro no vestuário do país

Por O Dia

Rio - Foi meio por acaso que criou sua grife de moda étnica: quando defendeu sua monografia no curso de Desenho Industrial da UFRJ, Julia Vidal fez uma roupa que usou na apresentação. Começaram a chover pedidos e ela criou a loja Balaco, hoje Ateliê Julia Vidal.

Dez anos depois, a estilista lança o livro ‘O Africano que Existe em Nós, Brasileiros’ (Babilonia Cultura Editorial, 104 págs., R$ 75,50), que mostra a influência africana na moda brasileira e traz fotos das dez coleções criadas por Julia em sua pesquisa.

Criação de uma das coleções étnicas de Julia VidalLeandro Martins

Mas o trabalho não foi fácil: ela esbarrou na escassez de fontes sobre o assunto. “Foi difícil encontrar esse começo, meio e fim. Por isso também o livro precisou de algum tempo para ser construído. Usei informações das fontes mais diversas, que fui juntando e costurando nessa colcha de retalhos”, conta a autora. “Da África, vêm algumas etnias, e elas vêm de diferentes lugares. E uma vai direto para o Maranhão, outra para a Bahia... Como modificam cada estado é difícil encontrar. Fiz análise de muito material de arte para encontrar algo sobre moda.”

As descobertas da estilista, no entanto, são muitas vezes surpreendentes. “A roupa do vaqueiro, como a do Lampião, de couro, com aplicações, traz referências do norte da África, dos afromuçulmanos do Magreb”, exemplifica Julia. “Os negros africanos eram bons na metalurgia e ourivesaria, então esse hábito de usar tornozeleira é uma coisa africana. A baiana usa com palha, a carioca, com medalhinha. As negras do Congo vinham com adorno na coxa e isso é uma variação. É uma coisa bem brasileira, sensual.”

E, se quando criou sua grife, a designer tinha maioria de clientes brancas, ela viu o interesse de mulheres negras pela moda étnica aumentar. “Esse brasileiro de agora está mais interessado em achar a sua beleza, buscar de onde veio, saber da sua história. É um movimento de afirmação de um modo geral, de construção de identidade”, acredita.

E um reflexo disso é o fortalecimento de uma moda feita de uma nova forma, com regionalismos, influências de etnias. “Acredito que essa é uma moda mais brasileira e acho que a gente precisa ampliar, pensar e criar a partir do nosso. Temos repertório muito grande de folclore, manifestações populares, as indumentárias são riquíssimas. Transformar isso em moda urbana é muito interessante.”

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