Luis Pimentel: O Rio de A a Z - 3

Do Arpoador até o Forte, Copacabana é a vida à beira­mar, com tudo o que a vida proporciona, da festa à angústia

Por O Dia

Central do Brasil — Caras e culpas, passos e abraços. Sorrisos sem dentes na boca da noite. Vadios desencontros e encontros vazios. Na fria calçada, calor de arrepio e vida atrasada. Leve suspiro. Sapato apertado. Um que é sem paradeiro. Há quem conte mentiras, enganando o silêncio. Os que acordam cedo vão bater continência ante o busto do herói. Têm as abstinências. Beijos e assaltos sob o imenso relógio de um tempo tardio. O sol sem remédio morre lá na Gamboa. Logo mais vem a lua enxaguar a Baía, sobre as luzes da Igreja. As cotias do Campo. A fumaça da Brahma. O repique do Elite. Os que bebem o sereno não padecem de azia. Entre o pão e o castigo, entre o medo e a euforia, ainda resta o elogio: Rio, Central do Brasil.

Luis Pimentel%3A O Rio de A a Z - 3Divulgação

Copacabana — A Praia de Copacabana, o Calçadão de Copacabana, os Bares de Copacabana, a Vida Noturna de Copacabana... são títulos do imaginário e também do álbum de fotografias de turistas e até de moradores da cidade. A fama que o bairro ostenta não é à toa. Do Arpoador até o Forte (dois cartões-postais divinos), Copacabana é a vida à beira­mar, com tudo o que a vida proporciona, da festa à angústia, do circo à tragédia. Tem até uma piadinha: a moça passeava ali pelo calçadão, distraída, quando o paquerador se aproximou: “Oi, linda. E aí, como é que é?”. E ela, bem singela: “É assim: pra entrar e sair, trinta. Pra dormir, cem.”

Cristo Redentor — “Da janela vê­se o Corcovado, o Redentor, que lindo...”, diz a canção de Tom Jobim. De minha janela, no bairro do Humaitá, também o vejo. E também o acho lindo, sobretudo à noite, iluminado para iluminar o céu. Os turistas também gostam muito, impressionam­se com o gigantismo e se deliciam no trenzinho que rasga a floresta para chegar até lá. Um belo passeio. Oradores da cidade (eu, pelo menos) curtem curti­lo à distância, de onde quer que esteja, caminhando na Lagoa ou simplesmente calejando os cotovelos na janela.

Delegado da Mangueira — O Rio, a Estação Primeira de Mangueira, o Brasil e o mundo do samba tiveram uma perda significativa no final de 2012, com a morte, em 12 de novembro, do Mestre Delegado (Hélio Laurindo da Silva), o mais elegante, classudo e charmoso mestre­sala das escolas de samba em todos os tempos. Nascido (em 1921) e criado no Morro de Mangueira, onde permaneceu até o fim, Delegado (estreou como mestre­sala da Verde e Rosa aos 17 anos de idade) dançando era um Rio passando em nossas vidas.

Dois irmãos — “Dois irmãos, quando vem alta a madrugada/E a teus pés vão repousar os instrumentos...”. Para a gente se lembrar dele, bastam esses versos, do paulista mais carioca que conhecemos, Chico Buarque de Hollanda. O resto é barulho e travessia.

Últimas de Diversão