João Pimentel: Ídolos

É claro que do samba vieram muitos heróis. E desse Olimpo eu tenho a sorte de ter convivido e conviver com quase todos

Por O Dia

João Pimentel%3A ÍdolosDivulgação

Rio - É elementar, meu caro leitor, que meu primeiro ídolo foi meu pai. Um super-herói real, campeão de vela, amante do samba, torcedor de arquibancada do Flamengo. Lembro que, quando chegava a quarta-feira, eu ficava esperando o telefone tocar. Ou melhor, ele chegar sem avisar, dar aquela buzinada na moto já vestindo a camisa do Mengão. Minha mãe não gostava nem um pouco, já que ir ao Maracanã na quarta à noite significava um drama para me tirar da cama para ir ao colégio no dia seguinte. Aquilo era um prato cheio para um casal recém-separado discutir a relação terminada.

Antes mesmo de perceber que meu pai era humano, de carne e osso e com seus defeitos, como todos nós, ele ganhou mais pontos na suposta perfeição ao me levar tantas vezes ao encontro do meu segundo e maior ídolo, o Zico. Tive o prazer de entrevistá-lo uma vez, para um programa esportivo, em sua casa, quer dizer, no Maracanã. E o que mais me surpreendeu foi poder constatar, já bem mais velho, que aquele craque fora de série, que tantas alegrias me deu na infância e na adolescência, era bem mais que um jogador completo. Mais que suas arrancadas rumo ao gol que tiravam o fôlego de qualquer torcedor, mais que a sua genialidade, percebi nele ainda mais qualidades para ser meu ídolo.

Ao chegar no Maracanã, umas 40 pessoas que visitavam o estádio, mais alguns funcionários, cercaram o Galinho de Quintino. No set de filmagem armado, ficamos esperando que ele atendesse, pacientemente, cada solicitação de atenção, cada pedido de um autógrafo, de uma foto.

Quando fomos apresentados, ele perguntou se já nos conhecíamos. Disse que sim, “eu sempre estive por aqui, mais ou menos naquele pedaço de arquibancada”. Ele achou graça. Valeu mais que qualquer autógrafo. Confesso que a minha ideia inicial era levar uma bola. Caso a entrevista fosse no gramado, pediria para ele fazer um lançamento para eu arrematar para o gol. Sorte dele que não foi.

Mais adiante veio a música, mas meu ofício de jornalista me mostrou que era melhor quando meus ídolos permaneciam apenas no meu imaginário, no altar da minha afetividade. Ouvi muita besteira, me decepcionei com alguns artistas que eu muito admirava. Vaidade além da arte. Mas alguns não. Sempre amei, amo e amarei Gilberto Gil, o artista e o cidadão. Sempre sairei de casa para ver Alceu Valença, artista 25 horas por dia. E tenho a honra de ser amigo de Jards Macalé. 

É claro que do samba vieram muitos heróis. E desse Olimpo eu tenho a sorte de ter convivido e conviver com quase todos. Walter Alfaiate, Zé Kéti, Wilson Moreira, Monarco, Seu Osmar da Portela, Argemiro, Nelson Sargento e tantos outros. Curioso é que foi através do samba que me tornei amigo de outro mito rubro-negro, Júnior.

Me emocionei na despedida do Léo Moura, que não é meu ídolo, mas merece todo o meu respeito pelo que representa para gerações de torcedores. Fiquei imaginando como é difícil encontrarmos hoje tal identificação. Seja com um jogador, seja com um artista. Vivemos uma escassez de ídolos, sinal dos tempos. Na dúvida, permaneço endeusando meu velho, heroico e errante pai.

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