Por daniela.lima
João Pimentel%3A Um pedacinhoDivulgação

Rio - Luiz Antônio era uma espécie de meio meio­irmão. Explico, ele foi criado pelo padrasto desde criança. Esse mesmo padrasto, quando eu tinha os meus tenros 14 anos, virou meu padrasto também. Quer dizer, o tal padrasto, separado da mãe dele, casou com a minha mãe. Ou seja, somos, ou melhor, ou pior, éramos irmãos por parte de padrasto. Tá bom, sei que isso não é parentesco nenhum. Mas o fato é que nesse processo de separação da ex e o encontro com a minha mãe, isso há mais de 30 anos, muita coisa ruim aconteceu, muita mágoa, muito desencontro, muita palavra fora de hora. E todos se afastaram.

Ele foi morar nos Estados Unidos e sumiu do mapa, pelo menos do meu mapa, até seis, sete anos atrás. Mas aos poucos ele reapareceu, em busca do pai/padrasto perdido, da carioquice sublimada pelo american way of life, enfim, de suas raízes.

Não era uma pessoa fácil, reconheço, também não sou, mas tinha personalidade, e disso eu gosto. E ele foi se aproximando, puxando conversa, tentando se redimir de algumas coisas de que eu nem lembrava, refazendo as suas contas com a vida.

Ele havia travado, e vencido, uma luta heroica contra um câncer na base da língua. Estava pensando em voltar a morar no Rio de Janeiro, estava de namorada nova, estava programando uma viagem com a filha de 18 anos. Estava de bem com a vida. Estava, não está mais.

No domingo, dia 8, toca o telefone na casa do nosso padrasto com a notícia que ele tinha sofrido um acidente de moto, em Miami. A polícia, através de um documento, havia localizado a ex­mulher. Apenas dois dias depois foi confirmada a notícia. Na quinta passada, a atual namorada conseguiu a informação de que ele havia sido atropelado por uma mulher que atravessou, sem olhar, um cruzamento. Acabou.

A trama é muito mais complicada que se imagina. O irmão e a mãe embarcaram para os Estados Unidos para resolver problemas burocráticos e sabe­se lá quando e onde será enterrado.

A morte de alguém próximo nos faz refletir profundamente sobre a nossa própria existência. Sobre o que fizemos ou deixamos de fazer, sobre nossas escolhas na vida. Pior, nos faz lembrar que a morte é um caminho inevitável e que somos muito pouco nesse universo cheio de brilhos e bolhas.

Tenho um amigo que passou a ter pavor de carro depois que um amigo se acidentou. Outra conhecida desenvolveu uma síndrome do pânico quando uma pessoa querida morreu do coração. Cada um reage da sua forma às perdas nossas de cada dia, mas o fato é que morre alguma coisinha dentro da gente. E eu já ando cansado disso.
P.S.: Desculpem­me por falar de tristeza.

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