‘Dossiê Boca’ relembra história do cinema maldito de São Paulo

Livro reúne Casos da pornochanchada e dos seus heróis anônimos

Por O Dia

Rio - Um garçom e um boiadeiro que viraram cineastas. Atores que dariam a vida pela profissão, mas hoje vivem na obscuridade. Jornalistas dedicados a cobrir a cena da pornochanchada em imitações caboclas da ‘Playboy’. O jornalista paulistano Matheus Trunk passou vários anos ouvindo todos esses personagens para escrever as reportagens que formam o livro ‘Dossiê Boca — Personagens e Histórias do Cinema Paulista (Ed. Giostri, 104 págs, R$ 32), sobre a famigerada Boca do Lixo, indústria da pornochanchada em São Paulo nos anos 70.

Matheus (E) entrevista Rodrigo Montana%2C um dos ‘heróis anônimos’. No detalhe%2C a capa de ‘Dossiê Boca’Divulgação

“Eles ajudaram a construir o cinema brasileiro e muitos estão anônimos”, conta Matheus, citando como exceção David Cardoso, diretor de filmes como ‘Dezenove Mulheres e Um Homem’. “Ele mora no Mato Grosso e prepara outro filme. Mas muitos desses nomes sumiram, não se atualizaram. Aconteceu até com gente que fez muito sucesso. No velório do (diretor) Mazzaropi (1912-1981) tinha umas vinte pessoas. E ele foi um dos cineastas mais bem-sucedidos do Brasil.”

O livro conta as histórias de gente como o chinês John Doo (1942-2012, de filmes como ‘A Noite das Taras’), Castor Guerra (ator em mais de 50 produções e até hoje pouco conhecido), o montador oficial dos filmes do cineasta José Mojica Marins, Giorgio Attili (1924-1987), o ex-boiadeiro e cineasta Rodrigo Montana (1940-2012). “E também o montador Walter Vanny, um cara que trabalhou na mesma quantidade de filmes que o Renato Aragão participou”, diz.

O jornalista paulistano Celso Lungaretti, preso e torturado na ditadura, é outro grande nome: acusado de delação pela esquerda, passou a escrever reportagens sobre filmes da Boca com o pseudônimo de André Mauro, em revistas como a ‘Playmen’ e a ‘Fiesta’, nos anos 70. “Alguns deles se reuniam até pouco tempo atrás em bares perto da antiga Boca. Acabei virando amigo e meio parente de alguns deles. É triste, porque muitos morreram antes de o livro sair”, lamenta o autor.

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