Regina Navarro Lins: A Cama na Varanda

Desencanto amoroso

Por O Dia

Desencanto amorosoFani

Rio - Samantha, 33 anos, estava sozinha há algum tempo, quando conheceu Mário e por ele logo se apaixonou. Deixou de sair com os amigos e nada mais lhe interessava; passou a viver em função namorado, acreditando ter encontrado alguém que a completava. Dizia se sentir como se tivesse ganho na loteria, afirmando que um homem tão maravilhoso não anda sobrando por aí.

Passados alguns meses, chegou ao meu consultório e desabafou: “Não sei o que está acontecendo comigo. De uns tempos pra cá, tenho me decepcionado com Mário. Já não sinto mais aquela grande paixão por ele. Chego a achar que ele não é essa maravilha toda que eu imaginava. Em alguns momentos, ele é arrogante e até grosseiro. Será que eu inventei uma pessoa, que não existe?

Quantas vezes ouvimos a descrição do parceiro amoroso de alguém como sendo uma pessoa maravilhosa, bonita, inteligente e quando somos apresentados a ela levamos um choque? O amor romântico não é construído na relação com a pessoa real, mas sobre a imagem que se faz dela, trazendo a ilusão de amor verdadeiro. Deseja-se tanto vivê-lo que, quando alguém o critica, provoca grande desapontamento. Não é para menos. Nada pode unir tanto duas pessoas como a fusão romântica. A questão é que, por mais encantamento e exaltação que cause num primeiro momento, ela se torna opressiva por se opor à nossa individualidade.

Vivemos um período de grandes transformações no mundo, e, no que diz respeito ao amor, o dilema atual se situa entre o desejo de simbiose com o parceiro e o desejo de liberdade. É inegável que a fusão proposta pelo amor romântico é extremamente sedutora. Que remédio melhor para o nosso desamparo do que a sensação de nos completarmos na relação com outra pessoa?

No entanto quando alguém alcança um estágio de desenvolvimento pessoal em que descobre o prazer de estar sozinho, se dá conta de uma profunda mudança interna. Preservar a própria individualidade passa a ser fundamental, e a ideia básica de fusão do amor romântico, em que os dois se tornam um só, deixa de ser atraente. Quanto à possibilidade de as pessoas alcançarem essa independência, existe certo pessimismo, alimentado pela crença de que o desejo de fusão com o outro está arraigado aos nossos ideais. Não participo dessa convicção.

* Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora dos livros "A Cama na Varanda" e "O Livro do Amor (ed. Best Seller), entre outros.

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