Por tabata.uchoa

Rio - Crise dos 30? Que nada! Prestes a completar três décadas, essa é uma palavra que parece ter ficado apenas no passado do Estação. Após começar 2014 com o risco de fechar as portas, a rede de cinemas tem como meta agora retomar os tempos áureos com uma programação comemorativa cheia de nostalgia, a partir do dia 14. Mas Marcelo França Mendes, presidente do grupo, sabe que não é só das histórias exibidas no telão que a fama do cinema é feita. Ele foi palco de pedidos de casamento e grandes eventos como a Mostra Banco Nacional Cinema, embrião do Festival do Rio.

“Recebemos muito apoio no ano passado. As pessoas mandaram mais de 300 depoimentos dizendo como o Estação mudou as vidas delas”, lembra Marcelo, sobre a reação do público ao saber que os cinemas da rede poderiam encerrar suas atividades diante de uma dívida de mais de R$ 43 milhões. O apoio espontâneo pela internet repercutiu tanto que atraiu o que seria a salvação da falência: o patrocínio da Net. Não é à toa que já está sendo providenciado um livro com a compilação de todas essas histórias para a data oficial do aniversário, em 12 de novembro.

Marcelo França Mendes%2C presidente do Grupo Estação%2C em uma das salas do primeiro cinema da rede%2C o Estação BotafogoBruno de Lima / Agência O Dia

“Senti que tudo o que fiz valeu a pena quando li textos como o do cara que saiu do armário depois de um filme que viu lá. Trinta anos depois, o cinema que mudou a minha vida também havia mudado a vida de tantas outras pessoas. Isso não tem preço”, conta ele, que começou a empreitada em 1985, no endereço do antigo Cine Coper, na Rua Voluntários da Pátria 88, em Botafogo.

“Eu ia fazer vestibular para Engenharia. Aí fui morar no prédio ao lado do Coper, em 82. Ele exibia clássicos todos os dias. Vi todos e resolvi fazer cinema”, conta Marcelo. Já na universidade, ele e um grupo de cineclubistas saíram à procura de um espaço para assistir aos títulos que não encontravam nos grandes cinemas, em meio à concorrência dos blockbusters.

“Naquela época, não tinha internet, a cinemateca do MAM estava fechada e também não tinha TV a cabo”, destaca o diretor, que alugou o Coper com os amigos, sem a mínima ideia do que era administrar um negócio. “Apanhamos muito. Éramos preparados para ver filmes, não para administrar uma empresa, que foi crescendo muito rápido. Não inventamos isso para ganhar dinheiro. Para você ter uma ideia, nos dois primeiros anos passava 17 horas lá dentro e não ganhava nada”, diz.

“O Estação virou ponto de convergência. Começamos como cineclube, exibimos um acervo. Depois, importamos filmes novos. Fomos nós que lançamos o Ang Lee no Brasil, fizemos mostras de Godard, Truffaut...”, lista ele, com orgulho.

Entre os altos e baixos dessa trajetória, Marcelo admite que os últimos dez anos foram críticos. O Estação mergulhou em dívidas, precisou abrir mão de espaços históricos como o Odeon e o Cine Paissandu e perdeu qualidade. “Quando você está em crise, fica difícil inovar. Ficamos parecendo um cinema comum”, admite ele, que emenda: “Essa programação nova é a nossa retomada, a redescoberta do Estação.”

As novidades têm empolgado tanto o público que as sessões de ‘Cinema Antigo Com Piano ao Vivo’ — que inauguram o programa — já estão com ingressos esgotados e mais de 15 mil confirmações de presença na página do evento. “A estratégia é a atualização estética das salas, aliada a uma programação única”, adianta ele, sobre os planos de trabalhar com as demandas das áreas onde se encontra cada unidade da rede. “O Estação Net Rio, em Botafogo, terá filmes novos, e o Estação Net Botafogo ficará com os clássicos. A unidade Gávea vai ter um trabalho”, exemplifica.

“O grande esforço é para tornar o ingresso o mais barato possível. Os valores vão variar com os nossos custos”, explica Marcelo, que acha justo os preços cobrados pela rede. “Uma vez, na porta do Estação Botafogo, uma pessoa veio reclamar comigo que o cinema era muito caro. Nesse dia, a meia-entrada custava R$ 12 e a pessoa estava comendo uma Pringles de R$ 14. Aí você, vê: cada um tem uma prioridade diferente, né?”, alfineta.

AGENDA COMEMORATIVA

CINEMA ANTIGO COM PIANO AO VIVO, com a apresentação do pianista Fabio Luz e projeção dos filmes mudo gregos ‘As Aventuras de Villar’ e ‘O Mágico de Atenas’. Estação Net Botafogo (Rua Voluntários da Pátria 88), amanhã, às 21h, e quarta, às 17h.

MOSTRA ANOS 80, com cópias restauradas de sucessos da década, como ‘Touro Indomável’, de Martin Scorsese, e ‘Veludo Azul’, de David Lynch. Cada sessão dá direito a uma figurinha para preencher os quatro álbuns dedicados à mostra. Estação Net Botafogo, de 16 de abril a 24 de setembro.

MARATONA TERROR 80, onde o público escolhe os três filmes exibidos em cada sessão, no site do Estação. No Estação Net Botafogo, sempre na terceira sexta do mês, a partir de meia-noite, com bolo e café no encerramento.

CLÁSSICOS DO CINEMA FRANCÊS: clássicos restaurados de Jean Renoir, Jean-Luc Godard, E Jacques Tati. De 23 a 29 de abril.

RELANÇAMENTO DA REVISTA ‘TABU’, que era distribuída gratuitamente e marcou época. A edição comemorativa terá textos com curiosidades e artigos cinematográficos. Fica pronta no dia 16 de abril.

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