O documentário que Eduardo Coutinho não pode finalizar

Filme está no festival É Tudo Verdade

Por O Dia

Rio - ‘Últimas Conversas’ começa e — diferentemente da maioria dos documentários de Eduardo Coutinho (1933-2014) — é o diretor quem aparece logo na primeira cena. Sentado em uma cadeira, fumando um cigarro, o cineasta divaga sobre o projeto que coube ao produtor João Moreira Sales e à montadora Jordana Berg terminar, após sua trágica morte, em fevereiro do ano passado. “Não poderíamos fazer um filme como se fôssemos o próprio Coutinho”, define ela sobre o longa, exibido hoje, às 20h, no Instituto Moreira Salles, pelo festival ‘É Tudo Verdade’.

As aflições do diretor são as primeiras frases escutadas pelo público. “Me arrependo de não ter feito com crianças”, diz ele, que continua: “O jovem já vem moldado.” A proposta inicial parecia simples — entrevistar adolescentes da rede pública, cursando o último ano do ensino médio. Mas alguma coisa parecia não se encaixar para o diretor, que chegou a dizer que era melhor não fazer um filme que não soasse verdadeiro.

Pamela%2C uma das jovens que Coutinho entrevistou para o filmeDivulgação

“Ele demorou a perceber que o abismo entre ele, de 80 anos, e um jovem de 18 poderia contar a favor do filme, e não contra”, explica a montadora. “Como a memória é uma das coisas que mais interessavam, ele não tinha certeza se conseguiria acessar algo assim num adolescente.” Mas, após assistir às 36 horas de material bruto, as coisas começaram a se encaixar. “Pelo pouco que conversamos, acho que ele acreditou que teria um filme bom, no final das contas”, arrisca Jordana.

“Vou te perguntar coisas estúpidas, como se eu fosse um marciano ou uma criança de 4 anos”, Coutinho comunicava a cada entrevistado. Era assim que começava conversas que resultaram em confissões como a da jovem que chorou ao lembrar dos abusos do padrasto. Ou de outra, que conta que a mãe já trabalhou na noite para sustentá-la, mas saiu dessa vida após conhecer sua ‘mãedrasta’.

Após fazer algumas marcações do material sozinho, o diretor passou seu caderno para Jordana. A dupla já se preparava para começar a edição quando veio a notícia da tragédia. Coutinho foi morto a facadas, dentro de casa, pelo filho Daniel, que tem esquizofrenia. “A troca com o João (Moreira Salles) foi fundamental. Tanto por saber que eu tinha alguém parceiro naquela dor, naquela orfandade, quanto nas decisões tomadas no filme”, conta Jordana, que, desde ‘Santo Forte’ (1999), é quem assina a montagem de todos os longas do cineasta.

“Com certeza, o que mais marcou e que é impresso diariamente em outros filmes que eu faço é a ética. Não perco jamais de vista que estou lidando com pessoas que têm filhos, famílias, empregos, amigos, futuro, carreira. Isso aprendi com ele (Coutinho). Para os filmes e para a vida”, resume ela.

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