Por tabata.uchoa

Rio - Grande cantora baiana de voz operística, depurada no canto de igrejas católicas e protestantes, Virgínia Rodrigues ganhou projeção nacional na década de 1990 como integrante do Bando do Teatro Olodum. De lá para cá, a intérprete se manteve fiel à sua ideologia de dar voz a repertório calcado na matriz afrobrasileira. ‘Mama Kalunga’, quinto álbum da cantora, lançado este mês, reforça esse compromisso de lapidar pérolas negras em tom ritualístico, entre o sagrado e o profano.

Virgínia Rodrigues canta samba de Paulinho da Viola%2C em tom solene%2C em seu belo disco ‘Mama Kalunga’Divulgação / Sora Maia

Produzido por Sebastian Notini e Tiganá Santana, convidado do samba ‘Sou eu’ (Moacir Santos e Nei Lopes) e autor de músicas de beleza sublime como ‘Saluba’ e a faixa-título ‘Mama Kalunga’, o disco emana orgulho negro. Virgínia destila, inclusive, certa ironia sobre o preconceito racial ao cantar o samba ‘Vá cuidar de sua vida’, de autoria do compositor paulista Geraldo Filme (1927 - 1995), ícone do samba de Sampa.

O canto de Virgínia Rodrigues tem algo de sacro, qualidade perceptível já na interpretação ‘a capella’ de ‘Ao Senhor do Fogo Azul’ (Gilson Nascimento), música que abre o disco. É como se a voz de Virgínia concentrasse a ‘essência de tudo’, como diz a letra desse tema que dá a partida no disco.

É fato que o canto de Virgínia por vezes soa solene, como mostra sua interpretação de um dos grande sambas filosóficos e interiorizados da obra de Paulinho da Viola, ‘Nos horizontes do mundo’, revivido pela intérprete somente com os toques do violão de Bernardo Bosisio e do violoncelo de Iura Ranevsky.

O violão também é soberano em ‘Teus olhos em mim’, canção linda de Roberto Mendes e Nizaldo Costa. Só que ‘Mama Kalunga’ concilia, na maioria das vezes, cordas e percussão, como ouvido em ‘Luandê’, samba do compositor baiano Ederaldo Gentil (1943 - 2012) levado por Virgínia na batida do ijexá. Sete anos após ‘Recomeço’ (2008), ‘Mama Kalunga’ reitera a força sacra de Virgínia Rodrigues.

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