Por daniela.lima
João Pimentel: Letras miúdas na bulaDivulgação

Rio - Há uns dez dias, morreu Cynthia Lennon. Como o sobrenome sugere, ela foi a primeira esposa de John, o Beatle paz e amor, um inglês radicado nos Estados Unidos que fez a cabeça de muita gente, inclusive eu, que lutou contra a Guerra do Vietnã quando a maioria do povo americano apoiava mais uma intervenção do Tio Sam em terras alheias. Deu no que deu. Cynthia era uma inglesa de classe média típica, que se encantou por um garotão com ambições artísticas. Viveu a beatlemania, a euforia da revolução que os meninos fizeram nos longínquos anos 60. 

Ainda no final da década, o mundo passou por mudanças fundamentais, em meio a conquistas sexuais e sociais, pelas quais brigamos até hoje. E a moça certinha foi trocada por uma artista plástica japonesa de personalidade forte, autocentrada e um tanto quanto antipática para quem ainda acreditava que aqueles hippies cabeludos, doidões, voltariam a usar franjinhas, paletós e gravatas. Paul até que sim, Lennon, nunca mais.

O que me chamou mais atenção na matéria sobre sua morte foi saber que o livro que Cynthia fez sobre o ex-marido trazia revelações nada abonadoras da personalidade de John. Magoada, ela diz que se soubesse das consequências de sua paixão pelo pai de seu filho Julian, teria dado meia-volta e se afastado dele para sempre. Se ela o tivesse feito, eu nem saberia de sua morte.

Disse em seus escritos que Lennon e McCartney desprezavam George Harrison, que o casamento deles era rejeitado pela família dela e pela durona Tia Mimi, que criou John depois da morte precoce de mãe do Beatle, Julia. Contou que os primeiros tempos dos Fab Four eram alegres, despreocupados, até a chegada da fama, das drogas e da mulherada, não necessariamente nessa ordem. Yoko Ono, a tal japonesa que, aparentemente, destruiu seu casamento e o matrimônio musical dos meninos, foi quem tirou John da medíocre vida de celebridade a que foi jogado. E todos, exceto o limitado Ringo, pressentiam isso. Sabiam que existia vida lá fora. E foram felizes à deriva da idolatria.

Cynthia descreve Lennon como um péssimo pai, como um canalha que empurrou um amigo para cima dela para conseguir se separar.

Rita Marley, em sua biografia, também descreve outro artista que pregou o amor e a paz entre os homens, Bob Marley, como um mulherengo compulsivo, que teve amantes e filhos fora do casamento. Mas, mesmo assim, seguiu fiel a ele. Vai entender.

O fato é que mesmo o melhor dos humanos sofre o mal de ser humano, ridículo, limitado e usar só dez por cento de sua cabeça animal, como diria outro maluco beleza ‘merdeiro’, Raul Seixas.

De perto ninguém é normal. Mas não devemos apontar os defeitos que sempre conhecemos no outro depois da frustração de nossas perspectivas de vida. O outro é o outro e não o que esperamos dele, por mais que este se esforce.

É elementar que não acho que ninguém deva trair, coçar ou só começar. Respeito é bom e todo mundo gosta. Mas o fato é que o ser humano é um projeto falho, um remédio inócuo, com letras miúdas na bula e repleto de efeitos colaterais. Deveria vir com a posologia estampada.

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