Por daniela.lima

Rio - Gays, drogas, prostitutas, amores proibidos, alfinetadas na religião e nos ‘bons costumes’. Esses temas, fáceis de encontrar na obra do roqueiro maldito Lou Reed (1942-2013), são a razão de ser e de viver de ninguém menos que Odair José. À galeria de personagens de músicas como ‘Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)’ e ‘Deixe Essa Vergonha de Lado’ (sobre o rapaz que namorava uma empregada doméstica), ele acrescenta ‘A Moça e o Velho’, sobre um casal formado por uma garota nova e um cara com idade para ser seu pai. A música está no novo disco, o roqueiro ‘Dia 16’, lançado hoje no Theatro Net, em Copacabana. 

'Se as pessoas ficam incomodadas com certos temas%2C é porque é para falar sobre eles'%2C dispara Odair JoséDivulgação


“E você acredita que ela já vem deixando gente de nariz torcido? Acho bom isso. Se as pessoas ficam incomodadas, é porque é para falar!”, diz, rindo, Odair. “Esses temas que todo mundo está debatendo — maconha, homossexualidade — já estão presentes na minha música desde 1970. ‘Vou Tirar Você Desse Lugar’ fiz porque as pessoas precisavam entender que as prostitutas não eram qualquer pessoa, elas tinham uma profissão. A questão das empregadas, que pus em ‘Deixe Essa Vergonha de Lado’, só está sendo resolvida hoje. Demorou, mas as pessoas estão contestando essas coisas.” 

No ano passado, por sinal, Odair revisitou um de seus discos mais polêmicos, ‘O Filho de José e Maria’ (1977) em show e DVD ao vivo (com o mesmo título). O álbum trazia uma visão bastante particular da vida de Jesus Cristo, mostrando-o como um cara comum. Algumas músicas dessa fase vazaram para o novo show, em meio a vários hits e seis músicas de ‘Dia 16’. 

“Na época, fui ameaçado de excomunhão por desrespeitar a Igreja”, conta. “O disco falava de uma pessoa qualquer, que tinha fraquezas, abandonava os pais, se envolvia com drogas. Podia ser até o próprio Jesus Cristo”, lembra Odair, que diz não ter religião. “Mas gosto do Papa Francisco, ele é ‘da hora’. Fala coisas que as pessoas estão precisando ouvir. Às vezes, nem acredito que ele é o Papa.”
Chutando longe o rótulo de brega, Odair encheu de guitarras o novo disco, em músicas como ‘Dia 16’, ‘Fera’ e ‘Começar do Zero’. 

“Quero que as pessoas conheçam o Odair José de verdade. Os meus shows são assim. Meu objetivo é fazer um show em que o fã não queira nem levantar para ir ao banheiro”, brinca. “E espero que as pessoas tenham outra visão sobre meu trabalho. Adoraria tocar no Rock in Rio. Inclusive, se esse disco ainda tem baladas, o próximo não vai ter nenhuma”, anuncia o cantor, que tirou o título do disco de sua data de nascimento, 16 de agosto de 1948. Não por acaso, o disco chega ao palco do Theatro Net no décimo-sexto dia de abril.

“Também coloquei várias efemérides ocorridas no dia 16 na capa do disco. Algumas me marcaram muito, como a morte do Elvis Presley, que foi em 1977, no dia do meu aniversário”, recorda. “Eu estava no meu apartamento na Praia do Flamengo tocando piano e um cara que trabalhava comigo me deu a notícia.” 

Morador há quase três décadas de São Paulo, o goiano Odair já teve vários endereços no Rio. O disco novo tem a romântica ‘Morro do Vidigal’, uma história de amor que tem a comunidade como cenário. Mas, ele esclarece, nunca morou lá.

“Eu ensaiava num estúdio no morro nos anos 70, gostava muito de lá”, recorda. “Na época em que ‘Vou Tirar Você Desse Lugar’ fez sucesso, eu morava em Rocha Miranda. Depois, fui para Copacabana, Botafogo, Leblon. Fui para São Paulo porque minha mulher não quis se mudar para o Rio. Me mudei muito porque melhorava de vida, ou casava, descasava. Quando a mulher faz você mudar de endereço, é ou porque acabou tudo, ou porque deu certo!” 

TOCA A ‘PÍLULA’, ODAIR!

Odair José, todo mundo sabe, é cheio de sucessos. Fica complicado na hora de montar o set list para o show — que, diz ele, dura uma hora e meia. Quem for hoje ao Net não precisa ter nenhum tipo de timidez na hora de pedir músicas. “‘Pare de Tomar a Pílula’, por exemplo, só entra se o público pedir”, conta. Mesmo assim, ele diz implicar com algumas canções de seu repertório. “Não toco nada que lancei entre 1980 e 2000. Tive sucessos nessa época, algumas canções entraram em trilhas de novela, mas são músicas que hoje não têm nada a ver comigo.”

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