A força dos mitos indígenas nas páginas de cinco livros

Editora Escrita Fina lança edições que contam lendas de tribos brasileiras

Por O Dia

Rio - A legada muitas vezes a um contexto considerado exótico e distante, em poucas situações a cultura indígena conseguiu ser absorvida — tanto por adultos quanto por crianças — em sua totalidade, com tudo o que ela possui de profundidade e sabedoria prática. Por meio do lançamento simultâneo de cinco títulos que tratam do tema, a Editora Escrita Fina tenta mostrar que as lendas e ensinamentos que nasceram nas ocas e matas são tão vastos que não podem ficar limitados ao Dia do Índio, 19 de abril.

Dois dos títulos que chegam às livrarias saíram das mãos da psicanalista, educadora e escritora Maria Inez do do Espírito Santo — ‘Era Uma Vez na Floresta’ e ‘Ceiuci — A Velha Gulosa’. O primeiro traz três lendas indígenas que tratam de temas tão diferentes quanto vingança e agricultura. Um conteúdo bem diverso, mas tão interessante quanto, pode ser encontrado no segundo.

Os desenhos assinados por Taisa Borges e Luciana Grether Carvalho ilustram os livros ‘Ceiuci — A Velha Gulosa’ e ‘Era Uma Vez na Floresta’Divulgação

Recolhido junto a um tuxaua — chefe de tribo — dos Anambé no norte do Pará, em 1865, pelo militar Couto Magalhães, e publicado em 1876 no livro ‘O Selvagem’, o mito de Ceiuci — hoje uma história pouco mencionada e quase esquecida — faz um questionamento sobre como levar a vida: fugindo ou enfrentando os problemas que sempre cruzam nosso caminho?

Na história, um jovem índio que sai para pescar se transforma em alvo da fome insaciável de Ceiuci, a Velha Gulosa — um ser mítico que assume a forma de uma mulher idosa que come tudo o que encontra pelo caminho. Capturado, ele acaba salvo pela filha de sua inimiga, que o deixa partir. Para sobreviver, é forçado a fugir pela floresta enquanto continua sendo perseguido pela criatura.

“Essa história funciona como uma metáfora para a vida. Temos sempre duas escolhas: podemos encarar nossos medos ou fugir deles. Na lenda, o jovem índio conta com a ajuda de amigos no momento da fuga, mas percebe que tempo demais passou enquanto escapava de situações que deveria ter enfrentado. Ouvir esse relato — que me foi contado pela primeira vez pelo pesquisador Fernando Lebeis — mudou para sempre a minha maneira de encarar vida. Acredito que ela possa fazer isso com todos que a lerem. Os contos indígenas não podem ser tratados apenas como lendas. São mitos que nos ajudam a enxergar melhor o mundo em que vivemos”, afirma Maria Inez, lembrando que a trama desenvolvida em ‘Ceiuci’ guarda grandes semelhanças com a ‘Odisseia’, de Homero — obra fundamental da literatura ocidental na qual o protagonista, Ulisses, precisa enfrentar uma série de desafios para voltar ao lar e amadurecer após cumprir a jornada do herói.

Além das obras escritas por Maria Inez, a editora também lança ‘Tempo de Aldeia’, de Edith Lacerda, ‘Saudades de Amanhã’, de Daniel Manduruku, e ‘Um Índio em Minha Casa’, de Tania Mara de Aquino.

“É estranho ver como um fator fundamental na formação da nossa cultura, como as lendas indígenas, muitas vezes acaba deixado de lado. Elas são retratadas de forma muito distante da realidade em que vivemos e, quase sempre, são lembradas apenas no dia 19 de abril, somente nas escolas. A imagem do índio é pouco vista. É quase certo que, se pedirmos para alguma criança brasileira desenhá-lo, provavelmente ela vai fazer a figura de um indígena norte-americano e não brasileiro. Nós queremos minimizar essa situação por meio do lançamento desses cinco livros”, finaliza o diretor comercial da Escrita Fina, Jorge Alberto Carvalho.

Rituais e danças no Parque Lage

Enquanto a cultura nativa ganha reforço nas letras, um evento busca fazer o mesmo no dia dedicado à celebração das tradições dos índios. A Associação Indígena Aldeia Maracanã, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura do Rio e com a Escola de Artes Visuais, vai realizar hoje, no Parque Lage, um grande encontro para celebrar a data.

A programação, que começa às 10h e vai até as 17h, inclui apresentações de rituais, danças e cantos indígenas, pintura corporal, mostra de cinema Guarani, contação de histórias, exposição, venda de artesanato indígena e o lançamento do livro ‘Una Isi Kayawa’, a primeira história de documentação da etnia Huni Kuin no Acre feita pelos próprios índios.

Participarão do evento índios das etnias Pataxó, Guarani, Fulni-ô, Puri, Tukano, Guajajara, Tupi-Guarani, Potiguara, Apurinã, Pankararu, Karipuna, Satere Mawé e Kayapó, entre outros povos. “É a segunda vez que realizamos esse evento. Existem aldeias indígenas em três cidades fluminenses — Parati, Angra dos Reis e Maricá. Por isso, a presença do índio é fundamental para entendermos a própria identidade de quem vive no Rio de Janeiro”, explica a chefe de gabinete da Secretaria Estadual de Cultura, Ana Cândida Moura.

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