Por tabata.uchoa
Bangu está para o futebol brasileiro como certa estrebaria de Belém para os cristãosAgência O Dia

Rio - Na última sexta-feira, dia 17 de abril, o Bangu Atlético Clube, o alvirrubro da Zona Oeste, completou 111 anos de serviços prestados ao futebol e ao Rio de Janeiro. Sou daqueles que acham que o bairro de Bangu está para o futebol brasileiro como certa estrebaria de Belém para os cristãos; tudo começou ali. Há referências de que partidas de futebol já eram disputadas em Bangu desde 1894, de forma pioneira no Brasil.

Das inúmeras histórias — épicas, trágicas, engraçadas ou comoventes — que marcam o Bangu, uma das minhas prediletas envolve o empresário zoológico Castor de Andrade, que durante muito tempo bancou o time pelo qual era apaixonado.

Conto o milagre, mas não dou o nome do santo. O sujeito era juiz de futebol e apitava um Bangu e Goytacaz em Moça Bonita. Estádio vazio, final de tarde em uma quarta-feira de sol, a charanga tocando ‘Maria Sapatão’; tudo nos conformes no Proletário Guilherme da Silveira. O Bangu ganha por um gol e o jogo está perto de acabar. Gilmar, goleiro banguense, enseba na hora de bater um tiro de meta. O árbitro ordena da intermediária:

— Vamos, Gilmar. Não complica. Repõe essa merda.

Diante da demora, Sua Senhoria levanta o amarelo e corre de peito estufado, cartão em riste e cabeleira ao vento, em direção ao goleiro. Nisso ressoa assombrosa, berrada e certeira, a voz do Doutor Castor de Andrade, que assistia ao jogo à beira do campo, na agradável companhia de dois capangas trepados:

— Cartão pra ele não. Ele tem dois e vai ser suspenso, porra. Domingo é contra o Fluminense. Ele não.
O árbitro escuta a voz de dublador de Deus no filme ‘Os Dez Mandamentos’ (aquele do Cecil B. DeMille) e muda, com destreza, o curso da corrida, partindo em direção ao zagueiro. Não deu certo:

— Esse também não pode! Tem dois.

E Sua Senhoria passa a girar feito caboclo de umbanda em cavalo novo, com o cartão na mão, até parar na frente do lateral esquerdo. Doutor Castor manda de prima:

— Esse pode. Amarela ele, que além de tudo não joga nada.

E assim foi feito. Cartão para o lateral, que entrou nessa de gaiato, como Pilatos no credo e fruta no cardápio do Comida Di Buteco. Aguardava-se apenas a súmula do juiz rodante para saber a razão da advertência.

Precavido, e com grande talento literário, o árbitro não teve dúvidas e escreveu cheio das convicções: “Aos 88 minutos de jogo fui acometido de grave crise de labirintite e comecei a rodar em campo. Ofendido pelo atleta de camisa número 6 do Bangu, que zombou do meu súbito problema de saúde, apliquei a regra e dei ao referido jogador, assim que me recuperei, o cartão amarelo.”

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