Por roberta.campos

Rio - O cantor português António Zambujo estava, como se diz na sua terra, “nas suas sete quintas”: como um velho amigo de Moacyr Luz, Teresa Cristina e João Cavalcanti, bebeu vinho (argentino), falou sobre futebol, comida, música, tocou e cantou junto, concordou (e divergiu) sobre como se dá a relação entre Brasil e Portugal na música e fez piada. Nem parecia, mas nunca tinha visto qualquer um daquela mesa antes.

António Zambujo lança novo álbum em turnê internacional que passa pelo BrasilMaíra Coelho / Agência O Dia

A reunião, promovida pelo DIA na última quinta-feira, começou com um discreto brinde e terminou em trocas de emails, telefones, CDs e promessas de encontros futuros. “Se dependesse só dos músicos, o intercâmbio cultural entre os dois países seria muito mais intenso. O problema é que envolve sempre um intermediário que precisa pagar as passagens caras”, brincou o cantor.

Zambujo, “ou Zamba, como me chamam os amigos”, um dos cantores de maior sucesso em seu país, está em uma turnê internacional que inclui shows marcados até 2016. No Rio pela enésima vez — ele já perdeu as contas —, agora para lançar o sexto disco, ‘Rua da Emenda’, esteve com os três cariocas para debater as influências de Brasil e Portugal nas respectivas culturas musicais.

Embora ele próprio encarne a experiência positiva dessa troca, para os brasileiros não é bem assim que a banda toca. “Eu tinha a certeza de que faria shows lá quando gravei meu primeiro disco, e nunca rolou”, diz Teresa Cristina. “Já fui fazer show até no Japão, mas não conheço Portugal.”

João Cavalcanti fez apenas uma incursão lusitana com o seu Casuarina, assim como Moacyr Luz. “Acabamos de voltar da Malásia, para se ter uma ideia. E em Portugal, onde a língua é a mesma e as semelhanças, muitas, como entre o fado e o chorinho, por exemplo, que são impressionantemente parecidos, não somos requisitados”, conta João.

Zambujo concorda: “Os brasileiros que cantam para multidões em Portugal são apenas os já conhecidos no mundo inteiro. Chico, Caetano, Ney, Marisa Monte. A música de raiz, tradicional, a nova música, ninguém conhece.” Moacyr acha que, no Brasil, as notícias de além-mar têm sido mais frequentes, “tem vindo muita coisa boa, como você, por exemplo”. E João Pimentel, colunista do DIA, lembrou que, no Rio, há até um Festival de Fado, do qual Zambujo inclusive já participou.

Mas, se o intercâmbio ainda é menor do que se gostaria, a influência tupiniquim na obra do cantor português só aumenta: depois de atuar com Rodrigo Maranhão, Yamandu Costa, Roberta Sá, Zé Renato e outros brasucas, está gravando um disco só com canções de Chico Buarque, inclusive um dueto com o próprio, em ‘Joana Francesa’.

Em ‘Rua da Emenda’, fez sua versão de ‘Último Desejo’, de Noel Rosa, com sotaque de fado, e, para além de tudo, Zambujo se autodeclara “completamente joãogilbertiano”. Para Moacyr, o estilo do português lembra o cantor guitarrista de jazz francês Henri Salvador, “na doçura, na elegância, na influência que vem de fora”.

A esta altura da conversa, pairava a sensação de que o encontro não teria fim. Entre um “poderia ficar aqui conversando por horas”, de Zambujo, e um “este papo não deveria ter hora para acabar!”, de Teresa, o violão de Moacyr Luz tocou ‘Som de Prata’ (sua em parceria com Paulo Cesar Pinheiro), em homenagem a Pixinguinha, aniversariante do dia, e ‘Yabá’ (sua com Teresa Cristina).

São muitas conversas%2C muita música e muitas garrafas de vinhoMaíra Coelho / Agência O Dia

Depois, o cantor português tocou e cantou ‘Algo Estranho Acontece’, a pedido de João Cavalcanti. Juntos, todos cantaram Noel, ‘Último Desejo’, numa verdadeira roda de amigos. Moacyr deu o tom divertido do encontro: “As trocas entre músicos demandam tempo, muitas conversas, são lentas. Mas nada que umas garrafas de vinho não resolvam.”

‘Puxo a brasa para a minha sardinha’

Ao entrar no ateliê Prosa na Cozinha, no Jardim Botânico, para o encontro com os músicos brasileiros, António Zambujo se animou: “Então, mas isso é uma cozinha?”, perguntou. “Sim, aqui se dá aula de culinária e acabamos de ter um almoço. Feijoada”, respondeu a chef Manoela Zappa.

“Não acredito! E sobrou alguma coisa?”, se animou. Por fim, não comeu, porque tinha acabado de traçar uma moqueca no restaurante O Caranguejo, em Copacabana, onde estava hospedado. “Tem um croquete de camarão delicioso”, resenhou. Zambujo é um glutão sem autocensura.

“Posso ficar horas falando de gastronomia”, diz. “Tenho a sorte de ser do país de uma das melhores culinárias do mundo. Talvez a melhor. Puxo a brasa para a minha sardinha mesmo. Natural do Alentejo, sul de Portugal, ele se diz fã das suas comidas típicas, açordas, sopas de cação e outros pratos locais. Mas sempre sai em busca de novidades quando viaja. No Rio, adora também o escondidinho da Academia da Cachaça. “Mas ainda tenho muito o que descobrir sobre a culinária brasileira.”

Reportagem de Ines Garçoni, Especial para O DIA

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