Luis Pimentel: Três notas musicais

'Dou o meu amado bigode em sacrifício. Que ao menos o Flamengo se inspire no meu exemplo'

Por O Dia

Luis Pimentel%3A TRês notas musicaisDivulgação

Rio - O bigode do Ary
Flamenguista ferrenho, o compositor Ary Barroso fez uma aposta curiosa com o tricolor e também compositor Haroldo Barbosa, no Fla x Flu decisivo de 1955. Quem perdesse teria que raspar o bigode. Deu Fluminense e Ary se viu obrigado a se separar do bigode que usava há 30 anos.

Os contendores combinaram que a raspagem histórica teria que ser em público, no bar Vilarinho, frequentado por ambos e pela nata do jornalismo, do rádio e da música brasileira. Só que depois do jogo Ary sumiu de casa, do trabalho e do convívio dos amigos. Foi encontrado dias depois, escondido, na casa da cantora Dircinha Batista.

O autor de ‘Aquarela do Brasil’ ainda tentou negociar, pedindo ao vencedor, ao barbeiro e às testemunhas que o permitissem ficar com o querido bigodinho pelo menos por mais alguns dias. Nada feito. A operação foi realizada na hora e Barroso, devidamente desbigodado e quase irreconhecível, tentou um último gesto de heroísmo com a seguinte frase:
— Dou o meu amado bigode em sacrifício. Que ao menos o Flamengo se inspire no meu exemplo!

Quem foi Adiléia?

Com esse nome, talvez ninguém identifique: Adiléia da Silva Rocha mais tarde trocou o nome para Dolores Duran. Nasceu em 1930 e começou a carreira artística ainda menina — e ainda Adiléia — no popularíssimo programa ‘Calouros em Desfile’, pilotado pelo acima citado (ui!) Ary Barroso, na Rádio Tupi. Estreou com nota máxima, caiu na simpatia do pouco simpático compositor e voltou para casa com um prêmio de 500 mil réis e o sonho de virar cantora profissional. Tinha 12 anos.
Da rádio, Adiléia — já Dolores — pulou para o Teatro Carlos Gomes, onde participou do elenco das inúmeras. Cantora de voz doce e cálida, foi também excelente compositora. Morreu vítima de um infarto fulminante, no dia 23 de outubro de 1959.

O gato do João

São inúmeras e variadas as notas do folclore envolvendo o cantor, compositor e superinstrumentista João Gilberto. A mais repetida em mesas de bar é a do gato. Dizem que João, morando sozinho em Nova Iorque, trancou-se no estúdio para preparar novo disco. Sozinho, não. Havia o gato do João.
Contam ainda que João trancou porta e janelas do estúdio, e durante 17 dias e 17 noites, sem parar para ir sequer à padaria, tocou seu fabuloso violão, sem parar, sem parar, sem parar, em busca dos arranjos cada vez mais redondos, do acorde cada vez mais perfeito. E o gato ali, sentadinho na cadeira, ouvindo, ouvindo, ouvindo.

Pois contam também que, finalizado o trabalho, João Gilberto finalmente escancarou as janelas. Era um décimo terceiro andar, mas o bichano não quis saber: atirou-se pela janela, para a morte que o livraria de tantos acordes e tantas melodias.

Últimas de Diversão