Por karilayn.areias
Foram%2C sem qualquer dúvida%2C as duas experiências mais impactantes que tive com o tango%3Ao terreiro e a tabernaArte O Dia

Rio - Carlota Joaquina, mulher de Dom João VI, detestava o Brasil. Quando abandonou nossas bandas e voltou à Europa, disse os maiores impropérios. Contam que, como uma espécie de último ato nos trópicos, bateu os sapatos para “não levar a terra desse maldito e desgraçado Brasil.”

Vejam as amizades que ironia: soube dia desses que Carlota virou pombagira e anda baixando numa quimbanda em Queimados. Escolheu como cavalo a médium mais novinha da casa e chega tocando quizumba no terreiro. Dizem que dá consultas em espanhol e é especialista em mandingas de amarração.

Não me surpreende que a rainha espanhola tenha parado numa quimbanda na Baixada Fluminense. Como posso me surpreender se, quando era adolescente, vi Carlos Gardel baixar em uma manicure que trabalhava como médium de incorporação em um centro espírita na Fazenda da Bica, entre Quintino e Cascadura. Gardel cantava tangos em lunfardo, a gíria falada nos lupanares do cais do porto de Buenos Aires nas primeiras décadas do século XX, acompanhado pelo espírito de um índio tupinambá que tocava um bandoneon de primeiríssima categoria.

Esses encantamentos do mundo marcam tanto o sujeito que, em 2010, visitei Buenos Aires, cheio de expectativas. Fiz um pequeno circuito de casas de tango, tomei uns gorós no Caminito; lá conversei com um garçom, velho torcedor do Boca, que me explicou como a inversão da ordem das sílabas está presente no lunfardo (e hoje só me recordo que “mujer” é “jermu”).

Adorei as pequenas livrarias, detestei a assepsia de Puerto Madero e dos seus restaurantes cheios de pompa. Flanei pela Corrientes em busca das empanadas da Pizzaria Guerrin e visitei cemitérios. Gostei de quase tudo na cidade.

O lugar em que me senti melhor ficava fora do circuito turístico: uma taberna decadente em San Telmo, que apresentava um coroa cantando uns tangos antigos, saídos dos puteiros que deram alma ao gênero. Lá me lembrei imediatamente do Gardel que baixava no subúrbio carioca e mandava ver no “lunfa”, acompanhado pelo caboclo do bandoneon. Buenos Aires em Fazenda da Bica. Fazenda da Bica em Buenos Aires, como queiram.

Foram, sem qualquer dúvida, as duas experiências mais impactantes que tive com o tango: o terreiro e a taberna. Daquelas que me fazem ao menos desconfiar do sentido da frase do Borges sobre o gênero no “Evaristo Carriego”: Antes era uma orgiástica diablura; hoy és una manera de caminar.

Perdoem-me a citação final em castelhano. É que já estou me aquecendo na beira do campo para bater um papo com a espanhola Carlota Joaquina num terreiro da Baixada.

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