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Cássia era o amor. E ela e esse sentimento precisam ser lembrados sempre

Por O Dia

Rio - Uma amiga de faculdade, Thaís, me procurou no botequim da esquina com uma intimação.
— Você tem que ir no Circo Voador assistir a um show de uma cantora sensacional. Eu nunca vi nada parecido. Vamos lá amanhã. 

A cantora Cássia Eller morreu em 29 de dezembro de 2001%2C aos 39 anosDivulgação


O cenário era uma espécie de alambrado e a tal cantora realmente era impressionante, um vulcão. Além de um timbre maravilhoso, uma afinação impecável e a atitude de uma veterana.

Fui com um outro amigo, Marco, que também ficou maravilhado. Era Cássia Eller lançando seu primeiro disco. Quando o show acabou fomos com o LP pedir uma autógrafo, conversar, saber quem era ela. E a grande surpresa foi encontrar uma mulher absolutamente tímida, que mal olhava nos nossos olhos. O oposto do que era no palco.

Anos depois, estava na praia lembrando esse dia quando o telefone tocou. Era a filha de um amigo contando que Cássia tinha morrido. Era um plantão de final de ano e eu já fui recolhendo as minhas coisas para ir para o jornal em que trabalhava. Acabou que minha missão foi cobrir o enterro dela em Sulacap. Até hoje, eu não sei por que ela foi enterrada naquele fim de mundo.

Foi um dos dias mais tristes da minha vida. Eu não era amigo e se entrevistei ela duas vezes foi muito, mas era e sou muito fã dela. Nunca vou esquecer a desolação de Nando Reis e Marisa Monte sentados na calçada do lado de fora do cemitério. Tenho amigos que tocaram e trabalharam com ela e o sofrimento de um amigo é nosso também. Então o telefone toca, e da redação e um chefe de reportagem me dá a seguinte ordem:

— Vai lá e pergunta para a Eugênia, a mulher dela, se na noite anterior usou drogas, cheirou cocaína.
Nesse dia eu aprendi que ordem idiota e um chefe insensível foi feita para não ser cumprida. O único jornalista de cultura presente era eu, o resto era repórter de polícia tentando saber o que menos interessava. “Porra, a Cássia morreu”, eu pensava, “e esses caras querem saber se ela cheirou ou não!”
Então a cada telefonema eu inventava uma história, dizia que quase fui expulso do velório, essas coisas.

Menti mesmo, e não me arrependo. Acabei de assistir ao documentário do Paulo Fontenelle sobre Cássia e me deu uma saudade imensa de vê-la em um palco. Ela foi, do seu jeito, uma revolucionária que tratava tudo de uma forma bem natural. Sua morte e o tratamento patético e preconceituoso da cobertura da imprensa só reforçam a impressão de que o mundo não merece determinadas pessoas.

Mas por outro lado, ela deixou seu legado que ninguém pode apagar. O desfecho é dolorido, claro, mas ressalta uma mulher inteligente, generosa, especial, desprendida de convenções que amarram qualquer chance de melhorar a vida aqui na Terra.

A mensagem que fica é da Eugênia, que disse que Cássia vive em todos, porque ela deixou o amor. Isso, Cássia era o amor. E ela e esse sentimento precisam ser lembrados sempre.

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